segunda-feira, 6 de maio de 2013

Estorieta: "De ilusão também se vive"

Diálogo real entre mim e um rapaz que me parou na rua:
- Oi, tio, pode me ajudar com um real?
- Pra começo de conversa, tio é a puta que te pariu. E pra que você quer um real?
- Não tá vendo? Entrei na faculdade!
De fato, eu havia visto. Cabelos picotados, pintados de roxo, amarelo, azul e fúcsia. Sem camisa. Um pouco mais e pareceria destaque de escola de samba. Espinhas no rosto, para completar o estereótipo.
- E qual o motivo de tanta alegria?, perguntei, olhando em torno e vendo a garotada esbanjando felicidade e hormônios por todos os poros.
-Ué, entramos na faculdade, tio! Entramos!
-Tá, você já disse isso. Mas eu pergunto de novo: e essa festa toda, é a propósito de quê?
Ele me olhou incrédulo. Olharia mais, se tivesse noção do que significa "incrédulo", mas não era o caso. Voltei a dizer:
- Vamos fazer o seguinte: se você me convencer que essa alegria toda tem razão de ser, te dou dez reais, pode ser?
O rapaz forçou os neurônios calculando quantas cervejas isso daria.
-Tá, concordou, emendando a seguir: então, entrar na faculdade é uma realização de vida, não é?
-Por quê?
-Ah, vou ter uma profissão, ganhar dinheiro, fortuna, essas coisas...
-Com a faculdade?
-É.
-E em qual faculdade você entrou.
E ele me disse o nome da instituição. Uma dessas "uni-qualquer coisa". Talvez nem isso.
-Sei, Você vai ficar dois, três anos pagando todo mês pra sair com uma profissão?
-É, mais ou menos.
-Como assim?
-Não, depois tem que batalhar pra arrumar o emprego, a concorrência tá brava, mas eu sei que vou ter condições de estar mostrando todo meu potencial mais pra frente.
-Quando?
-Durante a faculdade, no estágio, não sei.
-Então deixa eu ver se entendi. Você vai fazer um curso, pagar caro por ele, não ter garantia alguma que isso vai trazer alguma vantagem real em sua vida, mas acredita que isso vai te dar uma chance maior de "vencer na vida", é isso?
Ele balançou a cabeça colorida, não sei se concordando ou por mero reflexo.
-Daí você acredita que, neste mundo em que vivemos, as oportunidades aparecem para aqueles que se esforçam mais, ou são mais espertos, ou mais inteligentes, ou mais alguma coisa? Então deixa eu te dizer uma coisinha: este mundo só dá alguma coisa se receber algo em troca, e não é pouca coisa. Você vai ter de dar seu tempo, seu fiapo de algo que você imagina ser felicidade, sua dignidade e, se perigar, até mesmo sua bunda. Isso pra não passar fome. Se quiser tudo o que você está imaginando pra você, nem precisa fazer faculdade. Seja só um filho da puta, mas daqueles bons, capazes de fuder a mãe se precisar. Venda-se. A indecência é um princípio básico para a sobrevivência.
Continuei:
-Eu não sei de onde vocês tiraram essa idéia de que entrar na faculdade é motivo de alegria. Ok, você entrou. E o que vai fazer disso? Pendurar na parede? No pescoço? Digamos que você consiga terminar o curso sem entrar na lista de inadimplentes. E depois? Vai virar empregado? Vai abrir uma empresa? Qual vai ser sua opção? Ser fodido ou foder o outro? Não importa, já que você vai desenvolver uma úlcera, talvez um câncer, vai casar com uma mulher linda que logo vai virar uma baranga chata, depois vai ser chifrado e vai chifrar, vai gastar uma grana com prostitutas até ficar impotente por causa da próstata. Aí você vai poder parar e dizer: "Minha vida é um sucesso!"
O bom dessa história toda é que gastei os tais dez reais comprando uma tapioca na barraquinha da esquina. Não, não tenho cartão corporativo. Nem eu consigo ser tão f.d.p assim...

Texto: "Não"

Eu não acredito em coelho de páscoa, em papai-noel, em feliz ano novo, em coleguismo no trabalho, em cerveja depois do expediente (nem na cerveja, nem no expediente), na confiabilidade das salsichas, em rótulo de produtos comestíveis, na palavra do balconista. Não acredito em deus de qualquer espécie, nem do diabo, muito menos em igrejas e padres, pastores, sacerdotes e assemelhados. Não acredito em parada gay, em heterossexual, em homens, mulheres, crianças, e, mais que qualquer coisa, em velhos. Sobretudo, não acredito em escritores - principalmente aqueles que se metem a contar histórias de gente tão maluca quanto eles. Não acredito em espíritos, em passes, em guias, em santos, em "energias" positivas ou negativas (a não ser que estejamos nos referindo à eletricidade). Não acredito na bondade desinteressada. Não acredito na maldade sem explicação. Mas, para não dizer que desacredito de tudo, posso dizer que acredito na infinita capacidade de o ser humano ser estúpido, imbecil e autodestrutivo. E não porque o mal nele habita, mas porque cada ser vivo nada mais faz que confirmar sua própria natureza. Nisso, talvez, eu acredite.

Frases soltas de novo

Podem me acusar de anti-ecológico, mas vou encabeçar um movimento pela aniquilação das antas. É impressionante como o número delas tem aumentado mais e mais nos tempos que correm... Estão em toda a parte: no metrô, nos ônibus, nos locais por onde passo e até onde trabalho. Aliás, é justamente lá que estão os exemplares mais típicos da antice tupiniquim. De fato, a microestrutura reflete a macroestrutura...

Algumas pessoas (sic) adoram fazer piadinhas sem graça. Mas vá você se meter a fazer uma - que pode até ser engraçada - com a figurinha pseudo-cômica. Aí o bicho pega.

Recentes pesquisas mostraram que chimpanzés têm memória melhor que a dos ditos seres humanos. Qual a novidade? Há pelo menos 15 anos tenho dito isso, insistentemente, a minhas alunas e meus alunos - que ter boa memória só prova sua vocação para máquina copiadora ou computador, e que isso nunca foi mostra de inteligência. Mas o que fazem quase todos(as)? Decoram tudo o que foi dito, escrito, lido. Mas são incapazes de elaborar um raciocínio, por tosco que seja, a partir do que viram. Máquinas, nada mais. Bem... agora podem se comparar ao macacos - prova cabal que, de fato, descendemos deles. Alguns, inclusive, por linhagem direta.

Anotações do mundo corporativo 2

1. Corre por aí certa mania, entre profissionais do ensino e coordenadores (ou coisa que o valha), de se dirigir ao outro chamando-o de "professor". Assim:
- Você não acha isso, professor?
Mais ou menos como alguns fazem com garçons, lixeiros, comissários(as) de bordo e outras categorias. Odeio isso. Odeio que me chamem assim. Da próxima vez vou responder: "Escuta, você me conhece? Se sim, me chame pelo nome. Se não, antes de se dirigir a mim, pergunte como me chamo. Se não quiser se dar a esse trabalho, nem fale comigo. Poupa uma série de aborrecimentos: o seu, por ter de perguntar meu nome; o meu, de ter de falar com você." (A quem considere que eu esteja renegando minha própria categoria: não é o caso. Racionem: quando eu chamo o outro de "professor", eu estabeleço uma diferença entre mim e ele. Ou seja, eu não sou professor, o outro é. Sendo assim, reitero: ou me chamam por meu nome, ou me trate por "colega", que ao menos estabelece uma equanimidade - que não existe, eu sei, mas é o preço que se paga por viver socialmente. Claro que todas essas observações valem se o outro não for um fdp carreirista e sabotador. Aí é melhor deixar o doido continuar a falar sozinho ao telefone celular, ou seja o que estiver fazendo...)

2. Antigamente, havia um setor nas empresas que se chamava "Departamento de(o) Pessoal", com pequenas variações aqui e ali. Como parecia pouco simpático e eficiente, mudaram para "Setor de RH". Hoje, já falam em "Gerência de Relações Humanas", "Gerência de Pessoas", o escambau. Claro que só mudou o nome, já que a putaria continua a mesma - se não pior. Agora, de todas essas modas administrativas, a que mais me torra a paciência é a boiolice de chamar o (outrora) empregado de "colaborador". Como assim, "colaborador"? Deve ser para justificar a merda da salário e a quantidade de serviço que jogam em nossas costas. Sendo, "colaborador", intui-se que eu esteja lá para ajudar a empresa a galgar os degraus do sucesso, se forma abnegada, vestindo a camisa da equipe. Oras, eu não visto nem a camisa do time de futebol para o qual torço, que dirá o de uma empresa que só faz sugar meu sangue... Não, gênios da administração, nós somos "empregados" mesmo, paus-mandados, submissos e submetidos ao poder. Estou lá para ganhar um dinheirinho que pague minhas contas, e não para estabelecer intimidades, ser solidário, amiguinho ou o c... Se isso acontecer, ótimo; todos saímos lucrando. Mas o que me irrita é essa obrigatoriedade. De qualquer coisa. Ademais, se eu quisesse trabalhar numa coisa que me obrigasse a ser simpático, ia ser Relações Públicas ou recepcionista de consultório dentário, e não isso que estou fazendo para vocês, que diabos!

Anotações do mundo corporativo

1o. dia:
- Então, sr. Fulano, acho que está tudo OK pra você trabalhar aqui conosco - pelo menos de minha parte. Agora é só aguardar o pessoal dos Recursos Humanos entrar em contato com você. Mas não se preocupe: vai demorar um pouquinho, coisa de duas semanas mais ou menos. E eles avisam com antecedência, que é pra você não ficar correndo atrás de documentos, essas coisas...


2o.dia (24 horas horas depois):
- Sr. Fulano? Aqui é a K., da empresa Tal e Qual. Então, estou ligando para saber se o senhor pode estar vindo aqui no máximo até amanhã para pegar a lista de documentos que o senhor deve providenciar para sua contratação...

Fulano acha estranho, quase inconveniente a pressa, mas se conforma. A vida não está mesmo fácil. Concorda, e no dia seguinte vai a Empresa Tal e Qual. Cancela compromissos, deixa de fazer coisas importantes só para descobrir, na chegada à empresa, que a lista era uma lista mesmo. Uma folha de papel com a relação de cópias e cópias de todos os documentos possíveis e imagináveis. Só faltou pedir exame de fezes. Por via das dúvidas, confere mais uma vez a lista para ver se não havia também essa exigência.

- Fulano - diz K., com um sorriso no rosto - você poderia estar vindo amanhã para fazer o exame médico admissional?

Mais essa, pensou Fulano. Não, não poderia. Mas aí se lembra das contas vencendo, do saldo bancário cada vez mais negativo. "A que horas?" "Às dez da manhã." Justamente no dia do rodízio do meu carro, catso! Quase diz isso, mas contém-se. Não, tudo bem.


3o. dia: Depois de deixar o automóvel no estacionamento às 7 da manhã (já calculando o prejuízo das horas mortas da manhã), Fulano resolve tomar um café para fazer hora até o momento do exame. Que seria inútil, claro. Ninguém diz ao médico que está tomando remédio tarja preta numa situação dessas. Nem que é dado a explosões de fúria a cada seis meses. O médico também não pergunta isso. No máximo medem sua pressão, encostam o estetoscópio no peito do(a) candidato(a), rabiscam um "APTO" na ficha, e acabou.
Pois nem isso acontece: logo após chegar à empresa Tal e Qual, Fulano recebe a notícia de que, por uma emergência de "última hora" (resta saber que tipo de emergência não é "de última hora"...), o médico não viria. Mas que Fulano poderia estar marcando o exame para outro dia e horário. E tome mais quinze reais de estacionamento.

4o. dia: De posse do exame médico e da maior parte dos documentos, Fulano vai à empresa Tal e Qual. Toma um ligeiro chá de cadeira de vinte minutos. Aí aparece K. com uma pastinha. Mais papéis para assinar, preencher etc. Com as mesmas informações que estão nas fichas que Fulano preenchera no processo de seleção e nos documentos que ele segura debaixo do braço. Mais uma hora para preencher tudo, para K. conferir a documentação e sabe-se lá mais o quê.
-Bom, por enquanto está tudo certo, Fulano. Você só está me devendo as fotos, o Atestado de Antecedentes, a Carta de Recomendação do Último Emprego e todos os comprovantes de eleição desde 1980. Ah, falta também o senhor trazer sua ficha de Sócio-remido do Clube de Biriba de Penápolis...
- ...
- Então.. até segunda-feira!
- Como assim, segunda-feira? Eu tenho compromissos que não posso adiar nem cancelar... Até porque vocês me disseram que demoraria um pouco para me chamar...
- Pois é, mas é que tivemos uma alteração no cronograma. Sabe como é...
Nesse momento, Fulano pensa mais uma vez que seria o caso de mandar tudo à merda. Sabia que ia se arrepender de não ter feito isso, mas...
- Ah, estava me esquecendo, Fulano; preciso falar de seu desempenho nos testes... Veja, você foi bem na parte prática e na redação, mas se saiu um pouco ruim na parte teórica. Então, preciso que você, nesses três meses de experiência, se comprometa a sanar essas falhas, seja fazendo cursos, seja mostrando que está estudando, não importa. Mas é preciso que você demonstre esse empenho, ok?
- ...zzz!
- Sobre a indumentária...
- Indumentária? Ninguém me falou disso.
- Não, nada complicado. Sexta-feira todo mundo pode usar jeans, mas normalmente espera-se que a pessoa venha com roupas melhores.
Bom, agora está me chamando de malaco. Se ela soubesse que o jeans que estou vestindo custa mais que toda a roupa que ela enverga..., conjectura Fulano.
- Então, até segunda!
- Vá esperando. Ok, mais uma frase que fica nas intenções. Mas, na segunda, não apenas Fulano vai se atrasar, como vestirá uma calça jeans, camiseta e que foda a Tal e Qual, K. e a corja toda de engravatados que ali trabalha. Fodam-se-lhe todos, não importa por qual orifício excrecitório, excrecitante, excretatório - ah, vossas excelências sabem quais são!

Reflexões perdidas

A que mundo pertencem os professores? São uma classe social? Uma categoria profissional? Lúmpens? Devo confessar que não tenho a resposta. Certo é que, mais que qualquer outro segmento, o universo dos professores é amplo e quase irrestrito, o que confere o alto nível de picaretagem a que estamos sujeitos. Até os ditos populares rebaixam essa figura: "Quem sabe faz; quem não sabe, ensina." E por aí vai. Em vários casos, trata-se da mais pura verdade. E os interesses são tantos, que não há mesmo como conciliar tudo e todos, mesmo porque há tipinhos que se dizem professores que faça-me o favor! Ganhando o que ganha, e tendo de se desdobrar em inúmeros empregos para pagar as contas e o imposto de renda, não espanta o grau de ignorância de parcela significativa desses profissionais. E, tendo de se equilibrar entre a direção e a clientela, com ameaças (por vezes físicas) de ambos os lados, não admira as panes nervosas, o estresse, as doenças cardíacas e gastrointestinais. Mas vamos comemorar assim mesmo, a troco de nada, apenas para esquecer - por um momento que seja - a desgraça que fizeram de uma profissão que talvez seja a mais importante de todas, mas que nunca, nunca, nunca na história deste país foi tão vilipendiada por todos os que dela dependem: governantes, dirigentes, pais e filhos (da p., que seja!).

Reflexões: "Isto aqui é um pouquinho de brasil iaiá"

...mas o que comentar diante do que vemos e lemos, o mar de bosta em que afundamos mais e mais, cotidianamente? Na esfera política, os conchavos, as negociatas, o toma-lá-dá-cá, as conciliações e outras coisas inconfessáveis. Na educação, boas intenções que se chocam com a realidade brutal do tráfico e do desinteresse da maioria em aprender. (Diga-se de passagem que em um país onde o governante máximo bate no peito para dizer que não precisou estudar para chegar onde chegou, não espanta o desprestígio da escola.) No esporte, conquistas pífias e vãs - com as honrosas exceções. No debate intelectual, o deserto de idéias, o bate-boca com jeito de bate-estacas, a agressão verbal e física, a ausência de horizontes. No dia-a-dia, a barbárie, a hipocrisia, o cinismo, a falta de modos. Há quem se espante com os rumos que este país tomou e tem tomado, diante da pujança de recursos naturais e tal e coisa e coisa e tal, mas nossa História explica e demonstra que não poderia mesmo ser diferente. E, na lambança geral, ninguém - ou quase ninguém - se salva.

A própósito do mais do que comentado filme Tropa de Elite, causa espécie a saraivada de besteiras ditas a respeito e em torno dele. Sobre o filme em si, o propalado fascismo passa longe. Não há heróis ali, e esse é um dos bons aspectos da obra. Agora, de onde parcela da intelectualidade tirou a "lição" de que é preciso descriminalizar as drogas como parte do processo de diminuição da violência? Como se, tirando do traficante o privilégio de ser o único fornecedor, este partiria, assim, na boa, para a vida honesta, de trabalho duro nas fábricas de drogas ou como vendedor das mesmas em pontos comerciais estabelecidos legalmente. Mais ou menos como acontece com as bebidas alcoólicas, com os medicamentos e com os produtos eletrônicos, onde não existe pirataria, roubo de cargas e vendas clandestinas em camelôs e barraquinhas. Ah, como não me dei conta disso? E, nessa toada toda, vá você reclamar que roubaram seu relógio. É capaz de você ser acusado de fomentador da violência urbana, pois ostenta um símbolo do fosso social que separa as elites do restante da população. Durma-se com um barulho desses...

Fait divers: Impressões sem número

Comi, pela primeira e última vez, um lanche daquela rede de lanchonetes norte-americana que chegou aqui não faz muito tempo. Azia instantânea. Deve ser coisa da idade, penso agora. Cheguei num momento da vida em que essa porcariada que os adolescentes engolem não satisfaz meu paladar, ao contrário, detona-o. Ou, suprema frescura, devo ter chegado num ponto em que só posso mesmo degustar iguarias finas como caviar, salmão, fundo de alcachofra com molho de parmeggiano e sementes de papoula. Essas coisas.

Diga-se de passagem que a divisão da sociedade em classes se repete nos shoppings centers desta cidade. Você tem, por exemplo, o Iguatemi - destinado às classes abastadas que desdenham a Daslu. Tem o Morumbi, pra quem se acha Iguatemi, mas odeia quem freqüenta este último. E tem os periféricos, que lotam com as classes efetivamente subalternas. Dentro de um mesmo centro de compras, por sinal, encontra-se outro tipo de divisão: o dos setores de alimentação, ou praças de pasto, como diria eu. Para os mais favorecidos, um espaço separado, com mesas e garçons, toalha de pano e quejandos. Para a matilha esfaimada, a padronização das mesinhas chumbadas no chão, a bandeja que você tem de carregar, cotovelos pra lá e pra cá e a gritaria das crianças encapetadas. Típico.
Numa coisa, porém, as classes sociais todas se irmanam: na grosseria, na falta de senso ético, no desprezo absoluto pelo outro. Isto aqui, ô, ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá...

Frases soltas

Não há menor espaço, em todo o universo, que não aquele entre sua paciência e a intromissão do outro.
A estatística é um ramo das ciências exatas cuja certidão depende da malícia de quem interpreta os dados. Aqueles com seis faces, cada uma com um número.
A boa crítica é aquela que fala bem de sua obra e mal da dos outros, principalmente se esses "outros" forem seus desafetos.
Ônibus seriam ótimos meios de transporte não fossem os demais usuários. Raciocínio semelhante vale para o metrô.
O poder é sempre a medida do caráter humano.

Poema: "Fiat lux"

Em resposta ao desafio da Ana Rüsche (fazer um poema de duas linhas sobre a formação do mundo), segue o meu.

"Fiat lux"

Muito barulho
Por nada.

Reflexões curtas: "Das asneiras que ouço por aí"

Se eu ainda me surpreendesse com alguma coisa, talvez fosse com as insistentes provas que a humanidade me dá de sua inviabilidade. Imaginem a situação: dois sujeitos conversando a respeito de um assunto sobre o qual nenhum dos dois entende nada. Um ainda argumenta ao dizer que está "no começo do livro" que trata do tópico da discussão. O outro - e é aí que todo o potencial humano se fez luz - rebatia meio aos brados (embora fosse o natural dele) falando que discordava daquelas idéias. E eu ali, entre os dois, querendo chegar logo ao metrô pra ver se me livrava daquela chatice infindável. Ainda bem que já era de noite e nenhum dos dois podia distinguir minha expressão de enfado. Aliás, nem que ambos estivessem tratando da chegada do messias eu teria feito outra expressão. Primeiro, que não acredito nisso. Segundo, que nada neste mundo me tira a certeza de que chegamos ao fim da linha. E, diferentemente do que eu mesmo imagino, me parece que o mundo não vai acabar numa bola de fogo. Vai acabar, é sim, num bocejo. Um único e longo bocejo.

Instruções para viver agora

1.Observe sempre a ordem correta dos objetos na mesa. Mantenha-os no mesmo lugar.
2.Nunca deixe de apontar as impropriedades gramaticais dos outros. Se você cometer algum, diga que estava testando os conhecimentos do acusador.
3.Jamais admita desconhecimento em relação a nada. Você sabe tudo, leu de tudo, domina até as técnicas de equilíbrio em skates e patins sobre pisos irregulares. Eventuais críticos são apenas os invejosos em relação a seu talento infindável.
4.Sobretudo, faça alarde em torno de sua juventude e sua sapiência. Ainda que você não seja propriamente jovem, use roupas que mostrem seu jeito despojado de ser.
5.Faça muita publicidade de seus triunfos, mas erga um muro de silêncio em torno de seus raríssimos fracassos.
6.Mitos sexuais sempre causam bom efeito. E não se esqueça de sugerir que seus desafetos são homossexuais e, por isso, incapazes de qualquer coisa digna. Alimentar preconceitos, desde que em causa própria, vale ouro.
7.Fale alto em lugares públicos - desde que haja pessoas conhecidas em volta. De preferência, fale sobre algo que eleve sua própria pessoa.

Reflexões curtas: "Da insuportabilidade"

Definitivamente, vou me tratar. Ou isso, ou ainda sairei pelo mundo numa cruzada à caça dos imbecis voluntários. Minha misantropia está chegando a limites assaz perigosos: não suporto tiques nervosos (a não ser os meus), não gosto de gente feliz com suas limitações, tenho nojo de quem arrota orgulhosamente sua ignorância em tudo como se fosse sapiência. A feiúra alheia me constrange. Gente comendo me dá engulhos. Fujo de maltrapilhos, mas evito também os pretensamente bem-vestidos. Desconfio de quem usa gravata e gosta disso. Mas também não dou confiança a quem usa camiseta com dizeres contestatórios e/ou engraçadinhos. Não vejo graça em programas de humor, e, se pudesse, trancaria todos os palhaços sob uma lona de circo e poria fogo em tudo. Manias alheias me cansam; as minhas já me bastam. Detesto quando me subestimam, mas suporto menos ainda que me superestimem. Fujo dos elogios fáceis. Não gosto de críticas fúteis. Não é por acaso que sou totalmente a favor de que haja controle da posse e uso de armas. Não sobraria ninguém vivo.

Pequenos alívios: "Alguma coisa se salva"

Neste último final de semana fui ao casamento de um ex-aluno a quem muito estimo. Normalmente fujo dessas ocasiões como o demo fugiria da cruz ou como R.L. foge do espelho. Como todo mundo sabe, odeio gente. Multidões me exasperam. E eventos sociais costumam ter essas coisas. Mas fomos e chegamos em cima da hora. Por sorte, havia uma mesa com pessoas conhecidas, também ex-alunas da mesma turma do noivo. E papo vai, papo vem, surgem as conversas sobre "aquele tempo" - devidamente regadas a cerveja e uísque. E todas elas se tornaram professoras. Professoras que gostam do que fazem e buscam fazer um trabalho que não seja a reprodução do comodismo habitual da classe. E debitaram boa parte de sua capacidade a gente como eu, que exigiu delas mais do que elas acharam que podiam oferecer. Falsa modéstia à parte, creio que o máximo que fiz foi tentar mostrar que havia algo além do muro do quintal, para usar uma metáfora. Outro dia mesmo recebi uma mensagem no orkut de outra ex-aluna relatando o amor que ela sentia pela Literatura, e que isso se refletia nas salas de aula onde ela trabalhava - também debitando a mim o papel fundamental dessa formação. Gosto de saber que - ao menos no imaginário das pessoas - o que desenvolvo repercute positivamente no mundo. Talvez eu pudesse ter feito mais e melhor, mas eu sou apenas um. Não sei se isso melhorará qualquer coisa; tenho por mim que não. Mas não nego que saber que fiz alguma diferença é sempre um pensamento reconfortante.

Aviso aos navegantes

- Tudo o que se escreve aqui é mentira.
- Se eu pudesse recomeçar, faria tudo errado novamente.
- Qualquer decisão que você tenha de tomar resultará em algum tipo de desgraça. Cedo ou tarde.
- Entre a dignidade e a sobrevivência, fique sempre com a segunda, pois a primeira não compra caviar.
- Contra todas as evidências, reitere que você está sendo vítima de uma conspiração. O problema é se não houver evidências. Neste caso, a condenação é certa.

Poema: "Nada de importante"

"Nada de importante"

Você abre a porta de casa
E um cadáver lhe dá bom-dia.
Um odor de ferro e chumbo
Derrete o asfalto ao nascer do sol.
Um fulano fodido - e você dormindo
Depois de horas e horas de trabalho
Ou de falta dele, contando o que resta
Para lhe tirarem o prato e o teto.
Porque é isso mesmo:
Deus não existe, ou morreu,
Ou sequer sabe de sua existência.
E, seja como for, você é tão importante
Quanto o fiapo de baba que escorre
Da boca do cadáver que lhe dá bom-dia. Você pensa nisso
No justo momento em que um ônibus desgovernado
Faz paçoca de seus miolos.

Cachorros

Detesto cachorros. Aliás, acho que qualquer espécie animal cuja boca tenha abertura suficiente para levar minha mão embora deveria ficar do lado de dentro da jaula. Não é isso, porém, que me faz odiá-los. O problema dos cães é que eles são submissos ao ser humano - a pior espécie viva deste planetinha em que tentamos existir. É até plausível dizer que tenho ojeriza maior aos donos que aos cachorros propriamente ditos. Quem, em sã consciência, pode achar um pitbull "bonitinho"? Ou um buldogue? Ou uma dessas bolas de pelo cujos latidos ultrapassam qualquer nível decente de decibéis e fazem seu cérebro doer como se uma agulha o estivesse atravessando? Se não fosse passível de processo criminal, minha vontade seria praticar futebol com cachorros fofinhos e peludos. E tiro ao alvo com os grandes.
Dito isso, se existe uma coisa que me revolta as vísceras é ver o que muita gente considerada mais decente que eu faz com seus bichinhos de estimação tão logo eles começam a se tornar estorvos: abandonam os animais por aí. Isso quando não os matam de fome ou doença. Enquanto o danado do bicho for bonitinho e coisa e tal, tudo bem. A partir do momento em que ele passa a roer móveis, sapatos e a fazer suas necessidades pela casa, rua! Ninguém se lembra de que estão tratando com um ser vivo, que sangra e sente dor. Oras, é só uma "coisa" mesmo, não é? Essa irresponsabilidade, somada à total ausência de sentimentos, é que me enoja. Mas alguém aí liga para o que acontece com quem não pode(mais)falar?

Tentativa de ficção

Preciso corrigir esse defeito. Não é nada para se envergonhar, mas as pessoas não entendem o que eu digo, tenho de repetir, me repetir, eu que odeio isso mais que tudo, mais que o fato de eu usar óculos e ter a cara cheia de espinhas. Vou falar, então as palavras saem enroladas, umas sobre as outras, como putas de filme pornô, aí a pessoa me olha com aquela expressão de quem acha que você sofre de algum problema mental, então tento me explicar e o que consigo é manchar a roupa da pessoa com perdigotos e ver o riso amarelo e o cara enojada que ela faz antes de se afastar como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Nada para me envergonhar, mas eu preciso corrigir esse defeito antes que me tomem por demente. E eu não sou. Tenho apenas esse defeito, um nada, que projeta meu maxilar inferior para além de seu eixo e me confere um ar meio agressivo. É másculo, mas em mim é defeito. Um defeitinho. Fora isso, sou perfeito. Minha mãe concorda comigo, tanto que vai me ajudar a pagar a operação. Daí todos terão de me agüentar falando o que me ter na telha. Não vejo a hora.

Poema: "Nem as paredes confessam"

"Nem as paredes confessam"

Há tempos eu não via o sol se pôr
E hoje ele estava ali onde me refugio
Qual uma chapa de ferro esquecida sobre o fogo
Sob o manto de sólida sombra e sangue.
De onde estou vejo ruas esgueirando-se
Nas entranhas e em mortos morros
Onde vozes gritam no afã de se fazerem ouvir.
Mas o barulho das britadeiras as abafa
Junto com o caldo escuro extraído
Do asfalto - onde carros blindados rosnam.
Quem sangra, afinal, posta-se do outro lado
Da tela de TV em surdez de cristal líquido.
E atrás das paredes, no canto escuro delas,
Mastigo os ossos que me foram ofertados.

Religião

Assim como muitos, também tive uma fase de aderir a uma religião. Da perspectiva de quem me conhece hoje, um espanto. Mas na verdade nunca fui um religioso convicto. Ao contrário, tudo me parecia por demais duvidoso, embora eu fizesse força para acreditar. Por fim, saí daquela igreja, me afastei dos amigos que fiz por lá, fechei aquela porta. Aquilo cheirava demais a dinheiro, esse era o problema. Não que eu não goste dele; apenas achava que o discurso não combinava com a prática - sim, eu era mais ingênuo do que sou hoje. No fundo, eu estava em busca de algo que não me parecesse contraditório, ao menos não de forma tão escandalosa assim. Meu ateísmo, que parece inato, juntou-se ao anticlericalismo adquirido na prática social. A suprema ingenuidade, entretanto, residiu na ilusão de que o chamado "mundo real" fosse menos pior - o que, cedo, pude comprovar que não.
Difícil crer em alguma coisa, hoje em dia. A única que sobrou, para não cair no paroxismo absoluto, é a crença na inviabilidade do gênero humano. Infelizmente, esta se confirma a cada momento, em cada notícia, em cada passo que arrisco por aí.