segunda-feira, 6 de maio de 2013

Estorieta: "De ilusão também se vive"

Diálogo real entre mim e um rapaz que me parou na rua:
- Oi, tio, pode me ajudar com um real?
- Pra começo de conversa, tio é a puta que te pariu. E pra que você quer um real?
- Não tá vendo? Entrei na faculdade!
De fato, eu havia visto. Cabelos picotados, pintados de roxo, amarelo, azul e fúcsia. Sem camisa. Um pouco mais e pareceria destaque de escola de samba. Espinhas no rosto, para completar o estereótipo.
- E qual o motivo de tanta alegria?, perguntei, olhando em torno e vendo a garotada esbanjando felicidade e hormônios por todos os poros.
-Ué, entramos na faculdade, tio! Entramos!
-Tá, você já disse isso. Mas eu pergunto de novo: e essa festa toda, é a propósito de quê?
Ele me olhou incrédulo. Olharia mais, se tivesse noção do que significa "incrédulo", mas não era o caso. Voltei a dizer:
- Vamos fazer o seguinte: se você me convencer que essa alegria toda tem razão de ser, te dou dez reais, pode ser?
O rapaz forçou os neurônios calculando quantas cervejas isso daria.
-Tá, concordou, emendando a seguir: então, entrar na faculdade é uma realização de vida, não é?
-Por quê?
-Ah, vou ter uma profissão, ganhar dinheiro, fortuna, essas coisas...
-Com a faculdade?
-É.
-E em qual faculdade você entrou.
E ele me disse o nome da instituição. Uma dessas "uni-qualquer coisa". Talvez nem isso.
-Sei, Você vai ficar dois, três anos pagando todo mês pra sair com uma profissão?
-É, mais ou menos.
-Como assim?
-Não, depois tem que batalhar pra arrumar o emprego, a concorrência tá brava, mas eu sei que vou ter condições de estar mostrando todo meu potencial mais pra frente.
-Quando?
-Durante a faculdade, no estágio, não sei.
-Então deixa eu ver se entendi. Você vai fazer um curso, pagar caro por ele, não ter garantia alguma que isso vai trazer alguma vantagem real em sua vida, mas acredita que isso vai te dar uma chance maior de "vencer na vida", é isso?
Ele balançou a cabeça colorida, não sei se concordando ou por mero reflexo.
-Daí você acredita que, neste mundo em que vivemos, as oportunidades aparecem para aqueles que se esforçam mais, ou são mais espertos, ou mais inteligentes, ou mais alguma coisa? Então deixa eu te dizer uma coisinha: este mundo só dá alguma coisa se receber algo em troca, e não é pouca coisa. Você vai ter de dar seu tempo, seu fiapo de algo que você imagina ser felicidade, sua dignidade e, se perigar, até mesmo sua bunda. Isso pra não passar fome. Se quiser tudo o que você está imaginando pra você, nem precisa fazer faculdade. Seja só um filho da puta, mas daqueles bons, capazes de fuder a mãe se precisar. Venda-se. A indecência é um princípio básico para a sobrevivência.
Continuei:
-Eu não sei de onde vocês tiraram essa idéia de que entrar na faculdade é motivo de alegria. Ok, você entrou. E o que vai fazer disso? Pendurar na parede? No pescoço? Digamos que você consiga terminar o curso sem entrar na lista de inadimplentes. E depois? Vai virar empregado? Vai abrir uma empresa? Qual vai ser sua opção? Ser fodido ou foder o outro? Não importa, já que você vai desenvolver uma úlcera, talvez um câncer, vai casar com uma mulher linda que logo vai virar uma baranga chata, depois vai ser chifrado e vai chifrar, vai gastar uma grana com prostitutas até ficar impotente por causa da próstata. Aí você vai poder parar e dizer: "Minha vida é um sucesso!"
O bom dessa história toda é que gastei os tais dez reais comprando uma tapioca na barraquinha da esquina. Não, não tenho cartão corporativo. Nem eu consigo ser tão f.d.p assim...

Texto: "Não"

Eu não acredito em coelho de páscoa, em papai-noel, em feliz ano novo, em coleguismo no trabalho, em cerveja depois do expediente (nem na cerveja, nem no expediente), na confiabilidade das salsichas, em rótulo de produtos comestíveis, na palavra do balconista. Não acredito em deus de qualquer espécie, nem do diabo, muito menos em igrejas e padres, pastores, sacerdotes e assemelhados. Não acredito em parada gay, em heterossexual, em homens, mulheres, crianças, e, mais que qualquer coisa, em velhos. Sobretudo, não acredito em escritores - principalmente aqueles que se metem a contar histórias de gente tão maluca quanto eles. Não acredito em espíritos, em passes, em guias, em santos, em "energias" positivas ou negativas (a não ser que estejamos nos referindo à eletricidade). Não acredito na bondade desinteressada. Não acredito na maldade sem explicação. Mas, para não dizer que desacredito de tudo, posso dizer que acredito na infinita capacidade de o ser humano ser estúpido, imbecil e autodestrutivo. E não porque o mal nele habita, mas porque cada ser vivo nada mais faz que confirmar sua própria natureza. Nisso, talvez, eu acredite.

Frases soltas de novo

Podem me acusar de anti-ecológico, mas vou encabeçar um movimento pela aniquilação das antas. É impressionante como o número delas tem aumentado mais e mais nos tempos que correm... Estão em toda a parte: no metrô, nos ônibus, nos locais por onde passo e até onde trabalho. Aliás, é justamente lá que estão os exemplares mais típicos da antice tupiniquim. De fato, a microestrutura reflete a macroestrutura...

Algumas pessoas (sic) adoram fazer piadinhas sem graça. Mas vá você se meter a fazer uma - que pode até ser engraçada - com a figurinha pseudo-cômica. Aí o bicho pega.

Recentes pesquisas mostraram que chimpanzés têm memória melhor que a dos ditos seres humanos. Qual a novidade? Há pelo menos 15 anos tenho dito isso, insistentemente, a minhas alunas e meus alunos - que ter boa memória só prova sua vocação para máquina copiadora ou computador, e que isso nunca foi mostra de inteligência. Mas o que fazem quase todos(as)? Decoram tudo o que foi dito, escrito, lido. Mas são incapazes de elaborar um raciocínio, por tosco que seja, a partir do que viram. Máquinas, nada mais. Bem... agora podem se comparar ao macacos - prova cabal que, de fato, descendemos deles. Alguns, inclusive, por linhagem direta.

Anotações do mundo corporativo 2

1. Corre por aí certa mania, entre profissionais do ensino e coordenadores (ou coisa que o valha), de se dirigir ao outro chamando-o de "professor". Assim:
- Você não acha isso, professor?
Mais ou menos como alguns fazem com garçons, lixeiros, comissários(as) de bordo e outras categorias. Odeio isso. Odeio que me chamem assim. Da próxima vez vou responder: "Escuta, você me conhece? Se sim, me chame pelo nome. Se não, antes de se dirigir a mim, pergunte como me chamo. Se não quiser se dar a esse trabalho, nem fale comigo. Poupa uma série de aborrecimentos: o seu, por ter de perguntar meu nome; o meu, de ter de falar com você." (A quem considere que eu esteja renegando minha própria categoria: não é o caso. Racionem: quando eu chamo o outro de "professor", eu estabeleço uma diferença entre mim e ele. Ou seja, eu não sou professor, o outro é. Sendo assim, reitero: ou me chamam por meu nome, ou me trate por "colega", que ao menos estabelece uma equanimidade - que não existe, eu sei, mas é o preço que se paga por viver socialmente. Claro que todas essas observações valem se o outro não for um fdp carreirista e sabotador. Aí é melhor deixar o doido continuar a falar sozinho ao telefone celular, ou seja o que estiver fazendo...)

2. Antigamente, havia um setor nas empresas que se chamava "Departamento de(o) Pessoal", com pequenas variações aqui e ali. Como parecia pouco simpático e eficiente, mudaram para "Setor de RH". Hoje, já falam em "Gerência de Relações Humanas", "Gerência de Pessoas", o escambau. Claro que só mudou o nome, já que a putaria continua a mesma - se não pior. Agora, de todas essas modas administrativas, a que mais me torra a paciência é a boiolice de chamar o (outrora) empregado de "colaborador". Como assim, "colaborador"? Deve ser para justificar a merda da salário e a quantidade de serviço que jogam em nossas costas. Sendo, "colaborador", intui-se que eu esteja lá para ajudar a empresa a galgar os degraus do sucesso, se forma abnegada, vestindo a camisa da equipe. Oras, eu não visto nem a camisa do time de futebol para o qual torço, que dirá o de uma empresa que só faz sugar meu sangue... Não, gênios da administração, nós somos "empregados" mesmo, paus-mandados, submissos e submetidos ao poder. Estou lá para ganhar um dinheirinho que pague minhas contas, e não para estabelecer intimidades, ser solidário, amiguinho ou o c... Se isso acontecer, ótimo; todos saímos lucrando. Mas o que me irrita é essa obrigatoriedade. De qualquer coisa. Ademais, se eu quisesse trabalhar numa coisa que me obrigasse a ser simpático, ia ser Relações Públicas ou recepcionista de consultório dentário, e não isso que estou fazendo para vocês, que diabos!

Anotações do mundo corporativo

1o. dia:
- Então, sr. Fulano, acho que está tudo OK pra você trabalhar aqui conosco - pelo menos de minha parte. Agora é só aguardar o pessoal dos Recursos Humanos entrar em contato com você. Mas não se preocupe: vai demorar um pouquinho, coisa de duas semanas mais ou menos. E eles avisam com antecedência, que é pra você não ficar correndo atrás de documentos, essas coisas...


2o.dia (24 horas horas depois):
- Sr. Fulano? Aqui é a K., da empresa Tal e Qual. Então, estou ligando para saber se o senhor pode estar vindo aqui no máximo até amanhã para pegar a lista de documentos que o senhor deve providenciar para sua contratação...

Fulano acha estranho, quase inconveniente a pressa, mas se conforma. A vida não está mesmo fácil. Concorda, e no dia seguinte vai a Empresa Tal e Qual. Cancela compromissos, deixa de fazer coisas importantes só para descobrir, na chegada à empresa, que a lista era uma lista mesmo. Uma folha de papel com a relação de cópias e cópias de todos os documentos possíveis e imagináveis. Só faltou pedir exame de fezes. Por via das dúvidas, confere mais uma vez a lista para ver se não havia também essa exigência.

- Fulano - diz K., com um sorriso no rosto - você poderia estar vindo amanhã para fazer o exame médico admissional?

Mais essa, pensou Fulano. Não, não poderia. Mas aí se lembra das contas vencendo, do saldo bancário cada vez mais negativo. "A que horas?" "Às dez da manhã." Justamente no dia do rodízio do meu carro, catso! Quase diz isso, mas contém-se. Não, tudo bem.


3o. dia: Depois de deixar o automóvel no estacionamento às 7 da manhã (já calculando o prejuízo das horas mortas da manhã), Fulano resolve tomar um café para fazer hora até o momento do exame. Que seria inútil, claro. Ninguém diz ao médico que está tomando remédio tarja preta numa situação dessas. Nem que é dado a explosões de fúria a cada seis meses. O médico também não pergunta isso. No máximo medem sua pressão, encostam o estetoscópio no peito do(a) candidato(a), rabiscam um "APTO" na ficha, e acabou.
Pois nem isso acontece: logo após chegar à empresa Tal e Qual, Fulano recebe a notícia de que, por uma emergência de "última hora" (resta saber que tipo de emergência não é "de última hora"...), o médico não viria. Mas que Fulano poderia estar marcando o exame para outro dia e horário. E tome mais quinze reais de estacionamento.

4o. dia: De posse do exame médico e da maior parte dos documentos, Fulano vai à empresa Tal e Qual. Toma um ligeiro chá de cadeira de vinte minutos. Aí aparece K. com uma pastinha. Mais papéis para assinar, preencher etc. Com as mesmas informações que estão nas fichas que Fulano preenchera no processo de seleção e nos documentos que ele segura debaixo do braço. Mais uma hora para preencher tudo, para K. conferir a documentação e sabe-se lá mais o quê.
-Bom, por enquanto está tudo certo, Fulano. Você só está me devendo as fotos, o Atestado de Antecedentes, a Carta de Recomendação do Último Emprego e todos os comprovantes de eleição desde 1980. Ah, falta também o senhor trazer sua ficha de Sócio-remido do Clube de Biriba de Penápolis...
- ...
- Então.. até segunda-feira!
- Como assim, segunda-feira? Eu tenho compromissos que não posso adiar nem cancelar... Até porque vocês me disseram que demoraria um pouco para me chamar...
- Pois é, mas é que tivemos uma alteração no cronograma. Sabe como é...
Nesse momento, Fulano pensa mais uma vez que seria o caso de mandar tudo à merda. Sabia que ia se arrepender de não ter feito isso, mas...
- Ah, estava me esquecendo, Fulano; preciso falar de seu desempenho nos testes... Veja, você foi bem na parte prática e na redação, mas se saiu um pouco ruim na parte teórica. Então, preciso que você, nesses três meses de experiência, se comprometa a sanar essas falhas, seja fazendo cursos, seja mostrando que está estudando, não importa. Mas é preciso que você demonstre esse empenho, ok?
- ...zzz!
- Sobre a indumentária...
- Indumentária? Ninguém me falou disso.
- Não, nada complicado. Sexta-feira todo mundo pode usar jeans, mas normalmente espera-se que a pessoa venha com roupas melhores.
Bom, agora está me chamando de malaco. Se ela soubesse que o jeans que estou vestindo custa mais que toda a roupa que ela enverga..., conjectura Fulano.
- Então, até segunda!
- Vá esperando. Ok, mais uma frase que fica nas intenções. Mas, na segunda, não apenas Fulano vai se atrasar, como vestirá uma calça jeans, camiseta e que foda a Tal e Qual, K. e a corja toda de engravatados que ali trabalha. Fodam-se-lhe todos, não importa por qual orifício excrecitório, excrecitante, excretatório - ah, vossas excelências sabem quais são!

Reflexões perdidas

A que mundo pertencem os professores? São uma classe social? Uma categoria profissional? Lúmpens? Devo confessar que não tenho a resposta. Certo é que, mais que qualquer outro segmento, o universo dos professores é amplo e quase irrestrito, o que confere o alto nível de picaretagem a que estamos sujeitos. Até os ditos populares rebaixam essa figura: "Quem sabe faz; quem não sabe, ensina." E por aí vai. Em vários casos, trata-se da mais pura verdade. E os interesses são tantos, que não há mesmo como conciliar tudo e todos, mesmo porque há tipinhos que se dizem professores que faça-me o favor! Ganhando o que ganha, e tendo de se desdobrar em inúmeros empregos para pagar as contas e o imposto de renda, não espanta o grau de ignorância de parcela significativa desses profissionais. E, tendo de se equilibrar entre a direção e a clientela, com ameaças (por vezes físicas) de ambos os lados, não admira as panes nervosas, o estresse, as doenças cardíacas e gastrointestinais. Mas vamos comemorar assim mesmo, a troco de nada, apenas para esquecer - por um momento que seja - a desgraça que fizeram de uma profissão que talvez seja a mais importante de todas, mas que nunca, nunca, nunca na história deste país foi tão vilipendiada por todos os que dela dependem: governantes, dirigentes, pais e filhos (da p., que seja!).

Reflexões: "Isto aqui é um pouquinho de brasil iaiá"

...mas o que comentar diante do que vemos e lemos, o mar de bosta em que afundamos mais e mais, cotidianamente? Na esfera política, os conchavos, as negociatas, o toma-lá-dá-cá, as conciliações e outras coisas inconfessáveis. Na educação, boas intenções que se chocam com a realidade brutal do tráfico e do desinteresse da maioria em aprender. (Diga-se de passagem que em um país onde o governante máximo bate no peito para dizer que não precisou estudar para chegar onde chegou, não espanta o desprestígio da escola.) No esporte, conquistas pífias e vãs - com as honrosas exceções. No debate intelectual, o deserto de idéias, o bate-boca com jeito de bate-estacas, a agressão verbal e física, a ausência de horizontes. No dia-a-dia, a barbárie, a hipocrisia, o cinismo, a falta de modos. Há quem se espante com os rumos que este país tomou e tem tomado, diante da pujança de recursos naturais e tal e coisa e coisa e tal, mas nossa História explica e demonstra que não poderia mesmo ser diferente. E, na lambança geral, ninguém - ou quase ninguém - se salva.

A própósito do mais do que comentado filme Tropa de Elite, causa espécie a saraivada de besteiras ditas a respeito e em torno dele. Sobre o filme em si, o propalado fascismo passa longe. Não há heróis ali, e esse é um dos bons aspectos da obra. Agora, de onde parcela da intelectualidade tirou a "lição" de que é preciso descriminalizar as drogas como parte do processo de diminuição da violência? Como se, tirando do traficante o privilégio de ser o único fornecedor, este partiria, assim, na boa, para a vida honesta, de trabalho duro nas fábricas de drogas ou como vendedor das mesmas em pontos comerciais estabelecidos legalmente. Mais ou menos como acontece com as bebidas alcoólicas, com os medicamentos e com os produtos eletrônicos, onde não existe pirataria, roubo de cargas e vendas clandestinas em camelôs e barraquinhas. Ah, como não me dei conta disso? E, nessa toada toda, vá você reclamar que roubaram seu relógio. É capaz de você ser acusado de fomentador da violência urbana, pois ostenta um símbolo do fosso social que separa as elites do restante da população. Durma-se com um barulho desses...

Fait divers: Impressões sem número

Comi, pela primeira e última vez, um lanche daquela rede de lanchonetes norte-americana que chegou aqui não faz muito tempo. Azia instantânea. Deve ser coisa da idade, penso agora. Cheguei num momento da vida em que essa porcariada que os adolescentes engolem não satisfaz meu paladar, ao contrário, detona-o. Ou, suprema frescura, devo ter chegado num ponto em que só posso mesmo degustar iguarias finas como caviar, salmão, fundo de alcachofra com molho de parmeggiano e sementes de papoula. Essas coisas.

Diga-se de passagem que a divisão da sociedade em classes se repete nos shoppings centers desta cidade. Você tem, por exemplo, o Iguatemi - destinado às classes abastadas que desdenham a Daslu. Tem o Morumbi, pra quem se acha Iguatemi, mas odeia quem freqüenta este último. E tem os periféricos, que lotam com as classes efetivamente subalternas. Dentro de um mesmo centro de compras, por sinal, encontra-se outro tipo de divisão: o dos setores de alimentação, ou praças de pasto, como diria eu. Para os mais favorecidos, um espaço separado, com mesas e garçons, toalha de pano e quejandos. Para a matilha esfaimada, a padronização das mesinhas chumbadas no chão, a bandeja que você tem de carregar, cotovelos pra lá e pra cá e a gritaria das crianças encapetadas. Típico.
Numa coisa, porém, as classes sociais todas se irmanam: na grosseria, na falta de senso ético, no desprezo absoluto pelo outro. Isto aqui, ô, ô, é um pouquinho de Brasil, iaiá...

Frases soltas

Não há menor espaço, em todo o universo, que não aquele entre sua paciência e a intromissão do outro.
A estatística é um ramo das ciências exatas cuja certidão depende da malícia de quem interpreta os dados. Aqueles com seis faces, cada uma com um número.
A boa crítica é aquela que fala bem de sua obra e mal da dos outros, principalmente se esses "outros" forem seus desafetos.
Ônibus seriam ótimos meios de transporte não fossem os demais usuários. Raciocínio semelhante vale para o metrô.
O poder é sempre a medida do caráter humano.

Poema: "Fiat lux"

Em resposta ao desafio da Ana Rüsche (fazer um poema de duas linhas sobre a formação do mundo), segue o meu.

"Fiat lux"

Muito barulho
Por nada.

Reflexões curtas: "Das asneiras que ouço por aí"

Se eu ainda me surpreendesse com alguma coisa, talvez fosse com as insistentes provas que a humanidade me dá de sua inviabilidade. Imaginem a situação: dois sujeitos conversando a respeito de um assunto sobre o qual nenhum dos dois entende nada. Um ainda argumenta ao dizer que está "no começo do livro" que trata do tópico da discussão. O outro - e é aí que todo o potencial humano se fez luz - rebatia meio aos brados (embora fosse o natural dele) falando que discordava daquelas idéias. E eu ali, entre os dois, querendo chegar logo ao metrô pra ver se me livrava daquela chatice infindável. Ainda bem que já era de noite e nenhum dos dois podia distinguir minha expressão de enfado. Aliás, nem que ambos estivessem tratando da chegada do messias eu teria feito outra expressão. Primeiro, que não acredito nisso. Segundo, que nada neste mundo me tira a certeza de que chegamos ao fim da linha. E, diferentemente do que eu mesmo imagino, me parece que o mundo não vai acabar numa bola de fogo. Vai acabar, é sim, num bocejo. Um único e longo bocejo.

Instruções para viver agora

1.Observe sempre a ordem correta dos objetos na mesa. Mantenha-os no mesmo lugar.
2.Nunca deixe de apontar as impropriedades gramaticais dos outros. Se você cometer algum, diga que estava testando os conhecimentos do acusador.
3.Jamais admita desconhecimento em relação a nada. Você sabe tudo, leu de tudo, domina até as técnicas de equilíbrio em skates e patins sobre pisos irregulares. Eventuais críticos são apenas os invejosos em relação a seu talento infindável.
4.Sobretudo, faça alarde em torno de sua juventude e sua sapiência. Ainda que você não seja propriamente jovem, use roupas que mostrem seu jeito despojado de ser.
5.Faça muita publicidade de seus triunfos, mas erga um muro de silêncio em torno de seus raríssimos fracassos.
6.Mitos sexuais sempre causam bom efeito. E não se esqueça de sugerir que seus desafetos são homossexuais e, por isso, incapazes de qualquer coisa digna. Alimentar preconceitos, desde que em causa própria, vale ouro.
7.Fale alto em lugares públicos - desde que haja pessoas conhecidas em volta. De preferência, fale sobre algo que eleve sua própria pessoa.

Reflexões curtas: "Da insuportabilidade"

Definitivamente, vou me tratar. Ou isso, ou ainda sairei pelo mundo numa cruzada à caça dos imbecis voluntários. Minha misantropia está chegando a limites assaz perigosos: não suporto tiques nervosos (a não ser os meus), não gosto de gente feliz com suas limitações, tenho nojo de quem arrota orgulhosamente sua ignorância em tudo como se fosse sapiência. A feiúra alheia me constrange. Gente comendo me dá engulhos. Fujo de maltrapilhos, mas evito também os pretensamente bem-vestidos. Desconfio de quem usa gravata e gosta disso. Mas também não dou confiança a quem usa camiseta com dizeres contestatórios e/ou engraçadinhos. Não vejo graça em programas de humor, e, se pudesse, trancaria todos os palhaços sob uma lona de circo e poria fogo em tudo. Manias alheias me cansam; as minhas já me bastam. Detesto quando me subestimam, mas suporto menos ainda que me superestimem. Fujo dos elogios fáceis. Não gosto de críticas fúteis. Não é por acaso que sou totalmente a favor de que haja controle da posse e uso de armas. Não sobraria ninguém vivo.

Pequenos alívios: "Alguma coisa se salva"

Neste último final de semana fui ao casamento de um ex-aluno a quem muito estimo. Normalmente fujo dessas ocasiões como o demo fugiria da cruz ou como R.L. foge do espelho. Como todo mundo sabe, odeio gente. Multidões me exasperam. E eventos sociais costumam ter essas coisas. Mas fomos e chegamos em cima da hora. Por sorte, havia uma mesa com pessoas conhecidas, também ex-alunas da mesma turma do noivo. E papo vai, papo vem, surgem as conversas sobre "aquele tempo" - devidamente regadas a cerveja e uísque. E todas elas se tornaram professoras. Professoras que gostam do que fazem e buscam fazer um trabalho que não seja a reprodução do comodismo habitual da classe. E debitaram boa parte de sua capacidade a gente como eu, que exigiu delas mais do que elas acharam que podiam oferecer. Falsa modéstia à parte, creio que o máximo que fiz foi tentar mostrar que havia algo além do muro do quintal, para usar uma metáfora. Outro dia mesmo recebi uma mensagem no orkut de outra ex-aluna relatando o amor que ela sentia pela Literatura, e que isso se refletia nas salas de aula onde ela trabalhava - também debitando a mim o papel fundamental dessa formação. Gosto de saber que - ao menos no imaginário das pessoas - o que desenvolvo repercute positivamente no mundo. Talvez eu pudesse ter feito mais e melhor, mas eu sou apenas um. Não sei se isso melhorará qualquer coisa; tenho por mim que não. Mas não nego que saber que fiz alguma diferença é sempre um pensamento reconfortante.

Aviso aos navegantes

- Tudo o que se escreve aqui é mentira.
- Se eu pudesse recomeçar, faria tudo errado novamente.
- Qualquer decisão que você tenha de tomar resultará em algum tipo de desgraça. Cedo ou tarde.
- Entre a dignidade e a sobrevivência, fique sempre com a segunda, pois a primeira não compra caviar.
- Contra todas as evidências, reitere que você está sendo vítima de uma conspiração. O problema é se não houver evidências. Neste caso, a condenação é certa.

Poema: "Nada de importante"

"Nada de importante"

Você abre a porta de casa
E um cadáver lhe dá bom-dia.
Um odor de ferro e chumbo
Derrete o asfalto ao nascer do sol.
Um fulano fodido - e você dormindo
Depois de horas e horas de trabalho
Ou de falta dele, contando o que resta
Para lhe tirarem o prato e o teto.
Porque é isso mesmo:
Deus não existe, ou morreu,
Ou sequer sabe de sua existência.
E, seja como for, você é tão importante
Quanto o fiapo de baba que escorre
Da boca do cadáver que lhe dá bom-dia. Você pensa nisso
No justo momento em que um ônibus desgovernado
Faz paçoca de seus miolos.

Cachorros

Detesto cachorros. Aliás, acho que qualquer espécie animal cuja boca tenha abertura suficiente para levar minha mão embora deveria ficar do lado de dentro da jaula. Não é isso, porém, que me faz odiá-los. O problema dos cães é que eles são submissos ao ser humano - a pior espécie viva deste planetinha em que tentamos existir. É até plausível dizer que tenho ojeriza maior aos donos que aos cachorros propriamente ditos. Quem, em sã consciência, pode achar um pitbull "bonitinho"? Ou um buldogue? Ou uma dessas bolas de pelo cujos latidos ultrapassam qualquer nível decente de decibéis e fazem seu cérebro doer como se uma agulha o estivesse atravessando? Se não fosse passível de processo criminal, minha vontade seria praticar futebol com cachorros fofinhos e peludos. E tiro ao alvo com os grandes.
Dito isso, se existe uma coisa que me revolta as vísceras é ver o que muita gente considerada mais decente que eu faz com seus bichinhos de estimação tão logo eles começam a se tornar estorvos: abandonam os animais por aí. Isso quando não os matam de fome ou doença. Enquanto o danado do bicho for bonitinho e coisa e tal, tudo bem. A partir do momento em que ele passa a roer móveis, sapatos e a fazer suas necessidades pela casa, rua! Ninguém se lembra de que estão tratando com um ser vivo, que sangra e sente dor. Oras, é só uma "coisa" mesmo, não é? Essa irresponsabilidade, somada à total ausência de sentimentos, é que me enoja. Mas alguém aí liga para o que acontece com quem não pode(mais)falar?

Tentativa de ficção

Preciso corrigir esse defeito. Não é nada para se envergonhar, mas as pessoas não entendem o que eu digo, tenho de repetir, me repetir, eu que odeio isso mais que tudo, mais que o fato de eu usar óculos e ter a cara cheia de espinhas. Vou falar, então as palavras saem enroladas, umas sobre as outras, como putas de filme pornô, aí a pessoa me olha com aquela expressão de quem acha que você sofre de algum problema mental, então tento me explicar e o que consigo é manchar a roupa da pessoa com perdigotos e ver o riso amarelo e o cara enojada que ela faz antes de se afastar como se eu tivesse alguma doença contagiosa. Nada para me envergonhar, mas eu preciso corrigir esse defeito antes que me tomem por demente. E eu não sou. Tenho apenas esse defeito, um nada, que projeta meu maxilar inferior para além de seu eixo e me confere um ar meio agressivo. É másculo, mas em mim é defeito. Um defeitinho. Fora isso, sou perfeito. Minha mãe concorda comigo, tanto que vai me ajudar a pagar a operação. Daí todos terão de me agüentar falando o que me ter na telha. Não vejo a hora.

Poema: "Nem as paredes confessam"

"Nem as paredes confessam"

Há tempos eu não via o sol se pôr
E hoje ele estava ali onde me refugio
Qual uma chapa de ferro esquecida sobre o fogo
Sob o manto de sólida sombra e sangue.
De onde estou vejo ruas esgueirando-se
Nas entranhas e em mortos morros
Onde vozes gritam no afã de se fazerem ouvir.
Mas o barulho das britadeiras as abafa
Junto com o caldo escuro extraído
Do asfalto - onde carros blindados rosnam.
Quem sangra, afinal, posta-se do outro lado
Da tela de TV em surdez de cristal líquido.
E atrás das paredes, no canto escuro delas,
Mastigo os ossos que me foram ofertados.

Religião

Assim como muitos, também tive uma fase de aderir a uma religião. Da perspectiva de quem me conhece hoje, um espanto. Mas na verdade nunca fui um religioso convicto. Ao contrário, tudo me parecia por demais duvidoso, embora eu fizesse força para acreditar. Por fim, saí daquela igreja, me afastei dos amigos que fiz por lá, fechei aquela porta. Aquilo cheirava demais a dinheiro, esse era o problema. Não que eu não goste dele; apenas achava que o discurso não combinava com a prática - sim, eu era mais ingênuo do que sou hoje. No fundo, eu estava em busca de algo que não me parecesse contraditório, ao menos não de forma tão escandalosa assim. Meu ateísmo, que parece inato, juntou-se ao anticlericalismo adquirido na prática social. A suprema ingenuidade, entretanto, residiu na ilusão de que o chamado "mundo real" fosse menos pior - o que, cedo, pude comprovar que não.
Difícil crer em alguma coisa, hoje em dia. A única que sobrou, para não cair no paroxismo absoluto, é a crença na inviabilidade do gênero humano. Infelizmente, esta se confirma a cada momento, em cada notícia, em cada passo que arrisco por aí.

Estorieta: "Apartamentos"

Olhei o retrato dela e desejei com todas as forças do mundo que ela estivesse junto a mim, que me ligasse e dissesse um oi, qualquer coisa.
Naquele momento, ela hesitava com a navalha pensa na mão direita.

Reflexão errante

A notícia de que um político japonês cometeu suicídio por conta de suspeitas de que tenha participado de um esquema de corrupção deve ter feito muita gente pensar que essa moda deveria pegar por aqui nos tristes trópicos; quem sabe não tivéssemos um país melhor por conta disso? Mas é claro que é apenas um sonho. Diria mesmo que é impossível que isso ocorra, não importa quanto tempo passe. A não ser que troquemos de população: a do Japão aqui; a daqui, lá. Do mesmo modo, não acho plausível pensar nossos desacertos históricos por conta desta ou daquela nação, como se fosse possível a simples emulação, sem mais essa, como querem alguns. Por exemplo: é bonito chegar aqui e dizer que, em termos de acerto com o passado, a Argentina e o Chile estão melhores que nós. Quem diz isso ou é uma besta ou é mal-intencionado. Ou ambos. Primeiro que a formação sócio-histórica daqueles países é diversa da do Brasil, o que já determina muita coisa. Segundo que, a despeito de as ditaduras latino-americanas terem raízes semelhantes, seus descaminhos foram outros, bem como seus declínios. Querer que sigamos a Argentina ou o Chile implica uma ruptura de conseqüências quase certamente negativas para nós. Aliás, nessa conversa de seguirmos "los hermanos", nunca fomos tão vilipendiados. E velhas feridas voltaram a sangrar.
A bobagem tem ganhado, inclusive, páginas de alguns periódicos. E com ares de quem descobriu a pólvora. A nossa literatura, por exemplo, teria muito a ganhar se seguisse a da Argentina... Restaria saber como. Nossa história de conciliações, de jeitinhos, de favorecimentos e de rejeição quase doentia ao confronto não teria como dar forma a uma arte literária como a de nossos vizinhos - a não ser como farsa. Os exemplos mais recentes, entre nós, parecem desmentir o que aqui foi dito, mas... será mesmo? Pegue-se um livro como Cidade de Deus. À parte a temática, o que mais ali formaliza o fim da "malandragem" (nos termos de Antonio Candido, ao tratar de Memórias de um Sargento de Milícias)? Pouco, se o leitor prestar atenção.
O quadro, evidentemente, está mudando. Não porque os escritores tenham resolvido pegar em armas - salvo um e outro -, mas porque o jogo de forças sociais tem sofrido alterações drásticas nos últimos anos. A inconsciência política permanece entre os comuns mortais; o que tem mudado é o que chamaríamos outrora de "a marginalidade", incluindo os ditos movimentos sociais. E isso, ao contrário do que imaginavam as esquerdas, não nos levará a um país melhor e mais justo. E o confronto não será parte de um movimento dialético, mas de eliminação do outro, seja ele quem for. A literatura apenas formaliza essas contradições, nem sempre com resultados dos mais felizes - embora sempre representativos. Se os nossos desencontros históricos parecem nos levar para uma cilada, não será a imitação de modelos que melhorará o quadro, embora possa, sem dúvida, modificá-lo. Assim, seja a democracia norte-americana, seja o político japonês que prefere se suicidar a perder sua honra (aqui, eu diria que não se pode perder o que não se tem), nada tem efeito certo sobre a sociedade. Seria pretensão além da conta imaginar que "acertar as contas com nosso passado, como fizeram os chilenos" vai nos ajudar em algo que não seja a produção de outro desastre.

Poema: "Poema bastante contemporâneo"

Poema bastante contemporâneo

Sapatos de verniz riscam o assoalho
Onde se projetam as pernas das senhoras
E suas varizes que deixam rastros
Entre o verde e o marrom - qual bosta
Que evito, o asco me subindo a garganta.
Ao canto, vêm-me falar de amor
Como crer em deuses ou em borras de café
Sujando os pires. Mas esses morrem
Tarde e comem grama nascida no asfalto,
Enquanto concertam suas mandíbulas travadas
Em ré menor - celulares aos ouvidos.
Mas não há quem ouça senão a si próprio,
Senão o roncar de suas entranhas,
O torcer dos intestinos até a volúpia das fezes
Nas quais deslizamos, quase felizes.

Um alívio: "Um sim"

Tenho amigas lindas, talvez as mais lindas do mundo, se é que posso exagerar. E guardo o maior carinho por todas, tenho ciúmes delas, sempre quero ajudá-las, ainda que isso implique sacrifícios imensos de minha parte. Gosto de ver o sorriso no rosto delas. Diferente de alguns, não tenciono fazer sexo com elas, embora não desgoste da idéia em si - que fica, entretanto, restrita às fantasias ou devaneios que todos temos. Gosto delas. Simples assim. Algumas são engraçadas, outras mais singelas. Umas são tímidas, outras atiradas. Mas todas são amigas, dessas que ajudam a gente nas horas difíceis, e que a gente ajuda, idem, idem. Difícil dizer de quem gosto mais.
Há uma, porém, que me chama mais a atenção. Por ser difícil, por ser dúctil, por sua líquida presença que se esvai no seguinte instante. Demoramos para nos encontrar, o que se fez numa noite ligeira, de palavras mais ligeiras ainda, e eu tentando escavar - a pá e picareta - uma gema que fosse que se comparasse ao brilho daqueles olhos a um tempo riso e tristeza, da boca que mostrava os dentes perfeitos e o voz que era mel e melodia. E eu medindo aquela moça alta, de corpo esguio e de luz, tertúlia, perfume. Essa moça é minha amiga. E nem sabe que é tanto assim. Talvez se assuste, talvez derrube o prato do almoço, talvez me esmurre e me derrube no meio da rua. Mas nem me importo, porque é tão difícil acreditar que pessoas como ela existam, e que não precisamos nos matar, porque ainda existe um sentido cujo alcance nem sei, mas minha amiga é a prova - agora concreta - de que sim. Que sim. Sim.

Poema: "Pequeno registro edificante"

"Pequeno registro edificante"

para R.L.

Os ratos se recolhem cedo
Enquanto a tarde desaba esmagando
Pernas e cabelos colados ao vidro.
Olhos miúdos te acompanham
Na cegueira de intestinos ao léu
E te desvias do caldo de fezes
Sangue e sêmem - mas teus sapatos
Dançam um pouco ali sem que caias.
Nada que as moscas não. Que eretos
Dedos deixem de apontar. Que o sol
Não queima ou vermes não roam.
Precisas disso. E te gestas
Nos miúdos e nos restos.
Naquilo de que só tu és feito.

Poema: "Dos trincos"

Dos trincos

Ando temeroso pelas ruas da cidade
Mesmo quando o sol nos esbofeteia
Ou à noite, desviando nas calçadas
Da merda nelas largada - suspensa
A respiração, enquanto pessoas aos
Grupos falam alto e seus gritos
Chegam às janelas onde me refugio.
E nos telhados gatos gemem e trepam
Aos guinchos e há um barro que a chuva
Leva aos baixos e aos canos.
Mas quem diz que pode ser diverso?
O que sussurram os beirais dos pesadelos
De privadas falas? Deus não existe
Mas tem inúmeros representantes
Na TV e em programas de rádio.
À parte isso, crianças são dilaceradas
E sempre é possível levar um tiro perdido
No meio da cara.
(Nesse momento tranco a porta
E verifico a trava das janelas.)

Fait divers: Frases não muito soltas

Algumas pessoas, se morressem, preencheriam uma lacuna infindável em nossa existência.
Tenho comigo a convicção de que não é possível termos certeza de nada.
Não, gente, eu ga-ran-to que essa ponte é firme. Podem seguir em frente que ninguém vai cair.
Porque comigo é assim: não gosto de me sentir enganado. E não sou passivo. Pensam que sou passivo? Pois então aguardem meu advogado.
(No que você se dirige à saída para tomar um café, o sujeito chama você e entoa a ladainha) Sabe aquele pessoal? Então, vou ferrar quase todo mundo. Porque me disseram que, além de você, sou o único que cobra essas coisas. Ah, faça-me o favor! Parece desprezo, ou acham que a gente tem cara de trouxa. Não, eu vou falar, um a um, com eles. (Nessa hora, você hesita entre dizer alguma coisa do tipo: 'E eu kiko?', ou dar de ombros na linha do 'fazer o quê?' A prudência nos impele para a segunda opção.)
Marcar encontro com antigos (ou mesmo novos) amigos é encrenca certa. Não pelos horários, que nunca batem. Nem pelos gostos em matéria de comida ou bebida. O problema é percebermos o quanto estamos cada vez mais longe deles quanto mais desejamos estar perto.
Olha, a única alternativa possível é... (Comentário meu: se é única, não é alternativa...)
A permanência do "apagão" aeroviário é a mostra cabal da ausência de rumos em que está o país. E Lula nem se importa com isso, e sequer precisa. Ou precisaria?

Para quem espera achar algum nexo entre as frases, aviso: não há. Encarem como frases soltas, compostas ao calor da hora e da observação dos acontecimentos da semana. Talvez o nexo esteja no mosaico que elas compõem, sei lá.

Fait divers: Reflexões ligeiras

A medida do seu envelhecimento é dada quando você não consegue mais passar uma noite em claro e, no dia seguinte, dar uma aula que preste.
O grau de insanidade de uma pessoa se mede na justa medida da necessidade dela (a pessoa) ficar se exibindo para gente que não está ligando a mínima para ela - a não ser para ridicularizá-la.
Mensura-se o senso de elegância de alguém pela quantidade de terninhos idênticos que tal figura tem em seu guarda-roupas. Quanto mais, pior.
O escritor fracassado se mostra quando este precisa histericamente demonstrar que tem alguma relevância no mundo cultural. Quanto maior a gritaria - de preferência acompanhada de olhos esbugalhados e cara ensebada - tanto pior sua obra. Ou mais farsesca.
Quanto mais mansa a fala, mais calhorda é a pessoa. O que não significa que os gritalhões sejam menos fdpês, claro!
A prova de que o homem realmente descende do macaco reside nas figuras que a gente encontra por aí, cujas feições e/ou comportamento, não passam de resquícios da vida sobre as árvores... Vocês não têm um colega ou conhecido (serve vizinho de vaga em garagem de condomínio) algo simiesco? Pois é...


Obs.: lay-out novo nesta bagaça. Cara nova para comemorar o exorcismo que aqui foi feito. Xô, fantasmas!

Poema: "Da solidão"

"Da solidão"

Hoje acordei com teu sussurro
Fazendo riscos na paisagem de chumbo
Que eu insistia em esboçar.
Mas me virei, sentindo o gosto
Dos sonhos mal digeridos
E tu não estavas ali, e a janela
Me trazia um céu de sangue
Borrado enquanto crianças gritavam
E metais se retorciam
Em água e óleo e silêncios
Sujos que a chuva não lavava.
Há dias assim: de espaços
Impreenchíveis, de vozes
Que vêm sem mais - olho sem íris -
Em que o sol se abre
Para bocas secas e sem dentes,
Fendas que se fizeram de repente.


Ontem fui testemunha de um desastre que certamente passará à história como o novo "dia em que a música morreu"...

Poema: "Dos ocos"

"Dos ocos"

Porque, decerto, os míopes
Comem cereais dormidos ao fim da noite,
E junto ao meio-fio das avenidas
Os cegos andam, brandindo
Suas bengalas retráteis.
E para as paredes do prédio próximo
Abrem-se minhas janelas,
E dentro pessoas vêem TV
Ou mastigam o bolor no pão de cada dia,
Ou sonham com facas e outros objetos
Incisivos, ou trepam furiosamente
Com os pôsteres de mulheres
Amareladas de uso e prazo.
Porque, decerto, o oco que és,
Voz que vaza de tuas tripas,
Queda no asfalto onde
Nem crianças nem cães cagam,
Onde os nervos, expostos, pulsam sem ritmo
E, cobertor desastrado, tropicas
Em tristes tópicos catando o que resta
Da gosma (qual lesma) - de rastros -
Entre livros, e travos,
E egos despedaçados.


E não é que este blogue chega hoje aos 3.000 visitantes?

Frases soltas: "Medo"

Não vou participar de nada que me interessa realmente. Tenho obrigações profissionais.
Não vou sair de casa à noite para me divertir. Tenho medo da violência.
Não vou me encontrar com as pessoas de que gosto. Tenho medo de brigar com elas.
Não vou comer isso nem beber aquilo. Tenho medo de que isso me faça mal.
Não vou me dar o prazer de um dia ou uma noite de sossego. Tenho de pagar minhas contas.
Não vou descansar enquanto não destruir todos os meus inimigos. Tenho medo de não ser amado.
Não vou a lugar algum. Tenho medo de chegar lá.

Poema: "Louvação"

Louvação

Talvez haja um canto junto ao esgoto,
Talvez os ratos caminhem a esmo,
Hoje quis chover mas o sol não deixou
E as pessoas franziram os cenhos e
Cerraram os punhos e venderam
Suas mães e seus filhos para os açougues
E encheram suas gavetas de promessas
E de poeira e corpos decompostos.
Aleluia, louvemos todos.
Aleluia, me respondem.

Talvez o grito seja arrancado como a
Um dente ou as unhas das mãos;
Talvez uma garoa nos molhe o rosto,
Ou nos mitigue a sede gretada.
Mas do céu só nos vem o chumbo
Que entra nas veias e nos amarga a boca,
E nos cega a vista e corrói a pele
E pêlos pela saliva dos lagartos.
Aleluia, ergamos as mãos.
Aleluia, todos entoam.

Talvez os homens deponham as armas,
Talvez antes que um tiro se dispare;
Mas é desejar que os porcos não grunham,
E que os dentes dos lobos não rasguem
A carne de suas vítimas e o sangue
Não borre as paredes e se misture na
Lama dos excrementos e da urina,
E que haja alguma paz nesta terra
Mesmo aos homens de boa-vontade.
Então eu urro: Aleluia! Aleluia,
Ruminantes incivis. Aleluia,
Mugem todos,
E erguem as patas.

Estorieta: Mr. Eggman divaga

É bonito posar de defensor das minorias. Dá audiência. Angaria prestígio. Pena que nada disso venha acompanhado de atitudes condizentes. De que adianta se dizer "do povo" quando, para se diferenciar dos demais, você proclama sua condição heterossexual como qualidade positiva? De que adianta se misturar às massas, se tudo o que você consegue fazer é aquele angu indigesto - resultado de sua imaturidade e incapacidade de viver socialmente? De que adianta se proclamar vítima de perseguição, se você a provoca, com suas regurgitações públicas e sua empafia majestática? Talvez um poderzinho a mais, um tempo extra na banheira suja na qual se refestelam você e os demais apaniguados. De ilusão também se vive.

Estorietas: Mr. Eggman

"Diante de minha posição no contexto cultural inglês, é de espantar que ainda não me tenham chamado para uma representação diplomática, como adido, no Senegal..."

"Acolhida com entusiasmo pelas massas insossas, minha proposta de ministrar um curso de cultura pré-pós-pop-híper-moderna abordará aspectos do cinema, da música (erudita e popular), da literatura, da televisão, das novas mídias, do futebol, da sinuca e do carteado na instância da descontinuidade da desconstrução tal como preconizada pela filosofia contemporânea do último século..."

"Aliás, toda a produção futebolística inglesa padece de um excesso de atitude expositiva, além de de apresentar traços de um reacionarismo político nocivo ao reinado de Sua Majestade. Por falar nisso, não esqueçam de, na saída, comprarem o vídeo desta conferência!"

"Há males que nunca vão. E malas que nunca chegam que lhes baste."

Obs.: Mr. Eggman é um ser fictício, sem qualquer relação de semelhança (que, se ocorrer, será totalmente acidental) com pessoas, vivas, mortas ou mesmo as muito vivas. Na verdade, a idéia me ocorreu ao ler o último livro de Bretch lançado aqui no Brasil - Histórias do Sr. Keuner. O espírito era mais ou menos esse. Se não funcionou, isso se deve às limitações deste escriba.

Fait divers: como fazer inimigos e afastar pessoas

1. Construa uma imagem para si, de preferência que faça de você um defensor das minorias, dos pobres, dos frascos e dos comprimidos. Também vale aquela em que você posa de sábio, de intelectual - preferencialmente de esquerda.
2. Escreva livros ou dê palestras a respeito daquilo que acham que você sabe. Consultorias e programas de televisão, mesmo que de TVs educativas, valem ouro. Ou vire líder sindical, que dá no mesmo. Neste caso, e dependendo do sindicato, vale cultivar a imagem de tosco, meio pornográfico, grosseirão, que "fala como o povo".
3. Faça amigos que detenham algum poder em postos-chaves da máquina estatal ou de instituições privadas. Bajule-os o mais que puder, sem parecer que o faz.
4. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente. Vale tudo. Se vierem interpelá-lo, negue tudo e escreva (ou pague a um ghost-writer) um artigo em que você reitera sua retidão comportamental, moral e ética. Se puder, faça um discurso falando de sua inocência e da trama que a oposição está armando contra sua genialidade e demais condições pessoais.
5. Diga o quanto você é macho, sugerindo que os demais não o são, e dando a entender que essa última condição é um demérito para o exercício de qualquer profissão ou cargo público. Faça piadinhas a respeito das peculiaridades de uma cidade qualquer.
6. Instigue seus subalternos contra os demais chefes. Conte mentiras, calunie, difame, aumente.
7. Cumprimente todo mundo, em público, para que as pessoas vejam o quanto você é de boa índole. Depois, não se esqueça de contar mentiras, caluniar, difamar etc. Nada como ter as massas agindo a seu favor na hora H.
8. Faça-se de vítima.

Obs.: evidente que isso não se aplica a nenhum caso concreto, nem da esfera pública, muito menos no âmbito da privada, ops, da esfera privada. Trata-se apenas de ajustar as carapuças, caso largas ou justas além da conta.

Fait divers: impressões 3

Quando eu era criança, o comércio do bairro se concentrava nas chamadas quitandas - lugar onde se encontrava de tudo um pouco, incluindo balas e doces. Funcionavam bem, ao menos enquanto a cidade não era a monstruosidade na qual se tornou. Algumas resistiram à passagem dos anos, teimando em manter o caderninho dos devedores, a caixa feita de madeira (onde era guardado o dinheiro de cada dia), a bagunça das prateleiras altíssimas, aquele ar caseiro de improviso. Mas estão sendo passadas para trás, pelos supermercados, pela informática, pelo avanço do capitalismo (tardio, entre nós). Permanecem aqui e acolá, o quitandeiro e sua mulher, o moleque que lhes auxilia, o cheiro das coisas que, se não morreram, já o deveriam ter feito. O pior mesmo é o moleque, a cara de bolacha, agarrado ao servicinho sujo que lhe cabe. Não há como ter saudades disso...


Vamos todos assistir ao desfile cívico? Pois é, quem diria que veríamos, repetida, a sensação que tínhamos nos idos de 1972, 1973...? Vai piorar? Ah, mas não tenham dúvida.


Prepotência parece ser a palavra de ordem. Isso vale para zeladores, cozinheiros, professores, milionários de jaez revolucionário, políticos em geral etc. etc. Vamos, assim, copiando mais uma vez determinada prática social de nossos irmãos do Norte, que sobre ela criaram mais outra indústria... Democracia é uma palavra muito bonita, mesmo na boca de um ditadorzinho em potencial. Ou, como disse um importante pensador, evidentemente tratando de outro assunto: "trata-se de um conceito fácil de se pronunciar, mas de difícil realização" Ao que acrescentaria eu: ainda mais dito por pessoas que não vêem a hora de botar na rua seus bofes autoritários, os quais disfarçam sob a capa da inocência ou da ignorância.


Falei em feriado? Mas onde é que eu estava com minha consciência????

Fait divers: impressões 2

Tocar campainha das casas e sair correndo.
Telefonar de madrugada fazendo voz de tarado ou contando piadas sem graça.
Cutucar o nariz. Pelo lado de dentro. Em público.
Falar maravilhas de si próprio enquanto rebaixa os colegas do escritório.
Achar-se predestinado e irritar-se quando não reconhecem isso em você.
Tomar refrigerante normal e descer o cacete em quem toma a versão light.
Achar que a calça está caindo e sempre puxá-la para cima - sem perceber que a cena é ridícula e o movimento, inútil.
Pensar que, quando duas pessoas conversam, elas estão necessariamente falando de você.
Ou imaginar que, seja qual for o assunto do texto, o alvo também é você.
Fazer regime. E comer pastel, só "unzinho", que não faz mal.
Começar a subir qualquer escada com o pé direito. Ou o esquerdo.
Enviar e-mails indignados aos amigos, inimigos, correligionários e aos jornais.
Escrever blogues.

P.S.: os comentários foram desativados por tempo indeterminado. Agradecimentos diretamente a meu "perseguidor".

Fait divers: impressões

Voltou a fazer calor e os motoristas - irritados - gargarejam impropérios e ameaçam os passantes com palavras de desordem.
Há cafés onde não se serve café, e onde a comida é resultado de uma luta entre o mundo e a ausência de fundos.
A voz pastosa do pastor ecoa pelas paredes do templo. Os fiéis erguem os braços, gritam e se descabelam. E saem todos para cumprir a missão que lhes dada.
Melhor sair de casa e tomar sorvete de mangostim. Depois ir ao cinema e sonhar que se pode dominar o mundo.
Sempre há o risco de se cortar o dedo quando se manipula facas. Caso isso ocorra, tente estancar o sangue com água gelada. Se houver esguichamento (de sangue, evidentemente), não se apavore: a morte costuma ser rápida. Mas isso só acontecerá por extrema inabilidade ou por estupidez mesmo.
Assustador é saber que uma porcentagem considerável da humanidade é psicopata, e que você pode estar sentado(a) ao lado de um no metrô ou no ônibus, por exemplo.
A novela das 8 (que nem é mais das 8, mas tudo bem) não está assim tão fora do esquadro, como muitos podem pensar.
Quando se sobe (por vias naturais ou não) a alturas algo elevadas, é sempre bom se prevenir contra os males do ar rarefeito.

Fait divers: Rio de Janeiro e outras mumunhas acadêmicas

1. O Rio, visto de perto, parece São Paulo com praia e sotaque diferente.
2. Quando você faz uma "corrida" de táxi no Rio, a palavra é levada às últimas conseqüências.
3. Diferentemente do que fazem os turistas normais, fui conhecer - ciceroneado por um casal de amigos (Gabi e Ricardo), mais uma amiga deles - o Centro da cidade. Andamos na rua do Ouvidor (Machado de Assis certamente passou por ali), fomos conhecer a Confeitaria Colombo e o Centro Cultural Banco do Brasil. Mas, para não ser totalmente diferente, esticamos até Copacabana. Pena que já estava escurecendo. Mas o passeio valeu.
4. Os congressos tiveram seus altos e baixos. O do GEL, em Araraquara, foi bem ruim - tanto em termos de localização, quanto no que diz respeito à qualidade dos trabalhos. Mas pude conhecer pessoas interessantes, o que sempre é um ponto positivo. Já o encontro nacional da Abralic foi ótimo, pelo menos até onde pude ver. E todo mundo que vale a pena, na área de Literatura, estava lá.
5. Hotéis são um risco. Sempre.
6. Não comi feijoada no Rio. Em compensação, comi sushi - que estava bom, por sinal.

De resto, o de sempre: muito trabalho pelo frente, perspectivas sombrias em relação à minha subsistência, um desânimo generalizado entre colegas - impressão forte de fim de jogo. Nada de novo no front de batalha.
Queria estar na FLIP, mas como não fui convidado, nem pensar! (hehehe!)

Crônica: "Preconceitos"

"Preconceitos"

Por longos anos de minha vida, fui levado a crer em alguns mitos que assombraram (e ainda assombram) os descendentes nipônicos nas terras tupiniquins. O primeiro deles, como não poderia deixar de ser, é a questão do tamanho do membro. Ele mesmo, o Bráulio, o Bernardo, o Asdrúbal, todos esses sinônimos que a Sociolingüística já estudou, no que diz respeito aos termos considerados obscenos. Os sexólogos, porém, encarregaram-se de colocar abaixo esse preconceito, para a sorte e felicidade de nós, tristes representantes da comunidade nipo-brasileira.
Outro grande mito é o da inteligência. "Garanta sua vaga no vestibular: mate um japonês", lembram-se disso? Quando não havia muitos chineses e coreanos por aqui, esse era o grande lema entre os vestibulandos. Só Deus e eu sabemos o quanto e como sofri por conta desse problema. Meu pai me obrigava a ser o primeiro da classe, senão... E tome ameaças e, desculpem se caio no lugar-comum, mas acho que grande parte de meus traumas vem desse tempo de estudos forçados. Enfim, a gradativa integração da comunidade aos costumes brasileiros e vice-versa, mais a já aludida invasão dos chineses e coreanos derrubaram esse 2º mito e liberaram o meio de campo para os artistas plásticos, videomakers, cineastas, músicos etc. de origem nipônica, sem que precisássemos nos esconder dos parentes e conhecidos.
Agora, o 3º mito, e assunto principal desta crônica, é o seguinte: os chamados relacionamentos inter-raciais. Nunca ouvi de meus pais uma proibição taxativa (embora tenha amigos e amigas que já passaram por essa experiência), mas imagino qual seria a reação deles se eu começasse a sair com uma não-japonesa de qualquer espécie. E aí está o curioso: todos os meus objetos (no bom sentido, por favor) de desejo pertenciam, ou à comunidade alemã, ou à italiana. É de se conjecturar, inclusive, se não foi esse o motivo pelo qual Japão, Alemanha e Itália se juntaram para formar o Eixo, na Segunda Guerra Mundial. Penso que não, mas como explicar a atração, ou melhor, a compulsão que eu sentia pelas garotas do ginásio, colégio e da faculdade que tivessem as referidas ascendências? Creio que foi esse o motivo de minha atração por Márcia, Ângela, Sandra e Mônica, só para ficar nos exemplos mais imediatos. Mas a mais duradoura de todas e, acredito, a de maior peso em minha vida, foi Bettina.
Antes que alguém se lembre de alguma antiga novela da TV, é necessário esclarecer que Bettina foi (ou melhor, é) das poucas boas lembranças que tenho de minha passagem pelo Rio Grande do Sul. Eu a conheci como freqüentadora de um curso que ministrei por lá e, depois, continuamos a nos encontrar nos corredores da Casa de Cultura Mário Quintana e nos bares de Porto Alegre. De acordo com ela, a intelectualidade (entenda-se "artistas") de lá sempre aparecia nos mesmos lugares, daí o encontro inevitável. Nessas ocasiões, trocávamos figurinhas, por assim dizer, exercitando todas as funções de linguagem. Entre as reiterações fáticas e as persuasões conativas (traduzindo: entre os "sabe?" e as cantadas veladas), tínhamos tempo para conversas poéticas. Bettina era uma escritora razoável - ainda que ela própria se achasse ruim - e uma publicitária instigante, embora eu suspeitasse que seu verdadeiro talento estivesse nas ditas artes visuais (sem qualquer malícia). Nós nos encantávamos com nossos próprios umbigos, mas tínhamos consciência dessa egomania dupla. Eu a sentia crescer dentro de mim, sua figura alegre e melancólica, a contradição barroca num perfil árcade, idealizada por um poeta romântico (no caso, eu). E assim nos víamos, ela me apresentava alguns amigos e amigas, mas eu só reconhecia seus cabelos longos e loiros, seus olhos de um verde sem adjetivos e suas pernas quase sempre à mostra, por conta do calor da capital gaúcha. Eu estava me sentindo envolvido por ela, ou por mim, sabe-se lá. Bettina era tudo o que eu desejava, mas a verdade é que não sabia se estava ansiando por uma imagem ou por uma pessoa, ou - o mais certo - eu até soubesse sim, a Bettina de pele clara e lábios finos, de uma delicadeza tão pouco teutônica, talvez minha "Fräulein" (Mário, me perdoe!). Mas o que eu queria era a amante? A mãe? A cúmplice? O que eu esperava de Bettina senão o beijo, o sexo, os cabelos me entrando nos olhos e na boca; o calor e o frio porto-alegrenses, eu só queria a felicidade concretizada e sabia, bem dentro de mim, o quanto isso era ilusório, desejo mesmo, na acepção original da palavra.
Mas foi numa noite, a última (para variar) na cidade que, entre um martíni e outro, Bettina e eu trocamos um beijo, um beijo de literatura, também quente e frio, o aroma do álcool misturado às salivas, poemas trocados em guardanapos. Foi só um beijo, mas longo e sem explicação como são os melhores, uma troca, a compreensão de nossas igualdades e diferenças, de nossa humanidade tão pequena. Em volta, pessoas nos olhavam, espantadas. Dependendo do lugar, japoneses e alemãs ainda não se juntam com tanta freqüência.

Crônica: "O primeiro beijo ou: A garota mais vagal da cidade"

“O primeiro beijo ou: A garota mais vagal da cidade”

Andréia foi uma das alunas que tive quando dei aulas num colégio técnico em São Paulo. No começo, como em todos os anos, minha atenção restringiu-se ao comum: mais uma garota em meio a tantas outras que, estudando Processamento de Dados, não se conformava em ter Língua Portuguesa no currículo. Depois, passei a me sentir estreitamente ligado a ela. Não sei, uns cabelos negros e finos, e olhos dourados, e um corpo que sabia ser adolescente, deixando quase de o ser. Mas os lábios... os lábios grossos, quase pedindo, articulando palavras naquele tom fino e seguro e frágil, parecia sedução e eu me sentia tocado pelo contato tépido de sua língua e o ouro de suas íris irradiando luzes fixas sobre mim. Mas era minha aluna, uma garota ainda; como superar as culpas que eu sentia?
Soube, depois, que ela costumava, vez por outra, tomar o mesmo ônibus que eu, ao voltar para casa. Nessas ocasiões, ensaiávamos conversas tímidas de ambos os lados, eu sentia um desejo crescendo nela, ela em mim, só que não ousávamos ultrapassar o limite traçado, sei que havia o medo da rejeição, da palavra dura como um veredicto, do que seria uma mentira, mas o que fazer com as contradições humanas? Percebia, percebíamos nossas hesitações, mas nada se efetivava, e assim fomos até setembro.
Nessa época, eu iria me mudar de São Paulo, pedira demissão do emprego, era um dos meus últimos dias de aula. Andréia e eu saímos juntos, como nos acostumáramos a fazer. É engraçado pensar que, mesmo entre os seus e os meus colegas, não havia insinuações maldosas ou maliciosas, como se o que existisse entre nós fosse tão hipotético que sequer mereceria atenção. Chegamos à parada de ônibus, ambos num silêncio cheio de pontas; eu mesmo não entendia o porquê de minha mudança, que eu atribuía a experiências novas (com as conseqüências imagináveis) e, a despeito do que eu sentia por Andréia, ou por conta da incerteza de seus sentimentos, ou pelos dois fatores, o certo é que eu sairia da cidade. Dentro do coletivo, o mesmo mutismo. Nós nos olhávamos furtivamente, um querendo que o outro quebrasse a barreira do vazio que crescia entre mim e ela. Mas talvez fosse a última chance e, então, Andréia sussurrou:
- Vou descer um ponto depois do meu. Você me acompanha?
Sim, eu concordei e, apesar das sombras e da noite e do precário da situação, desci com ela, propus que caminhássemos até sua casa. Ela assentiu. Durante o percurso, paramos, Andréia virou-se de frente para mim, eu respirava com dificuldade, ela se equilibrou na ponta dos pés para me alcançar, passou seus braços em torno do meu pescoço, segurei sua cintura, passei minha língua por seus lábios úmidos, nos beijamos com delicadeza no início, depois com fúria, trocamos líquidos quentes, sim, eu beijei Andréia, um beijo doce de chiclete e desejos, beijei Andréia, rapazes!, e senti o aroma de seus cabelos e a firmeza de seu corpo sem dores, nos beijamos e quase em seguida nos afastamos, talvez uma culpa, não sei bem, sentimos vergonha do que fizéramos, sequer sabíamos por quê, e nos olhamos novamente, e voltamos a nos abraçar num beijo mais longo, sob as luzes artificiais da cidade.
- Minha despedida, disse Andréia, num sorriso de que eu nunca soube precisar o alcance.
Após isso, ficamos sem nos ver mais. Nesse tempo, voltei para São Paulo, readaptei-me à vida agitada daqui, procurei viver. Minha ex-aluna, no entanto, não me saía da memória. Escrevi para ela, telefonei-lhe, mas jamais obtive resposta ou retorno. Todos os dias, passava em frente a sua casa, numa tentativa tola de encontrá-la sem, no entanto, ter coragem de tocar a campainha e perguntar por ela.
Uma noite, pude revê-la. Entrou no ônibus, reconheceu-me, novamente aquele sorriso que tanto me cativara. Era quase a mesma: percebia-se o cabelo mais curto, ligeiramente ruivo, o corpo mais desenvolvido. Crescera: os seios querendo beijar o mundo.
- Oi, Ricardo!, ela me cumprimentou. E, diante do meu olhar interrogativo: Desculpa não ter ligado; você sabe, continuo muito preguiçosa. Fez o comentário e emendou: Conhece o Márcio?, apresentando-me seu namorado.
Beijei-a no rosto, estendi a mão ao rapaz, os dois se afastaram. Virei-me para Denise, uma amiga que me acompanhava, expliquei:
- Uma ex-aluna minha.
Foi o que eu disse. Mas pensei, disfarçando a sensação da perda quase irreparável que, ao menos, ele era bonito, muito mais bonito do que eu.

Crônica: "Teoria do medalhão enviesada ou 'Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve'"

“Teoria do medalhão enviesada ou ‘Audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve’”

Acho que quase todo mundo já teve, em sua vida escolar, momentos de sucesso, seja intelectual ou esportivo, seguidos das decorrências naturais desses acontecimentos: admiração, inveja e garotas, nem sempre nessa ordem, muito menos simultaneamente. Uns conseguiam mais, outros menos, conforme sua inteligência e aparência, duas qualidades que dificilmente se achavam juntas numa mesma pessoa. Fato curioso, concordo, nem que visto pelo enfoque de vitamina de preconceitos. No reboque disso, as fantasias e os sonhos, que vão perdendo a ingenuidade à medida em que se sai da infância e batemos todos com a cabeça na fase adolescente, que não tem esse nome por acaso. Se é disso que vou falar? Penso que sim, embora não tenha certeza dos rumos desta história, nem se ela valeria alguma coisa hoje. Enfim, são relatos de outros tempos.
Era meu primeiro ano numa escola pública, estadual, e me surpreendia a quantidade e variedade de tipos humanos no pátio, num maremoto de calças de tergal cinza-escuro e camisas quase brancas dos veteranos contrastando com a luminosidade dos recém-chegados. "Vais encontrar o mundo", diria meu pai, se tivesse lido O Ateneu , o que não era o caso. Deixando de ser o único filho em idade escolar, eu perdera o privilégio relativo do ensino particular, à época ainda inferior a algumas escolas do Estado. Meu pai, como bom representante da etnia nipônica, mantinha uma espécie de pacto conosco, ou seja, aquele que nos obrigava a tirar sempre as melhores notas em todas as matérias. Para ser mais exato, sua expectativa era a de que fôssemos os primeiros da classe, da escola, do bairro, da cidade, do país, do planeta e, se não fosse pedir muito, do universo. Para quem conhece o seriado "Jornada das Estrelas", eu deveria ser uma espécie de sr. Spock mirim. Ou, caso prefiram a "Nova Geração", da mesma série, o Tenente Comandante Data, um andróide. Meu irmão, ignoro se por esperteza ou comodismo, nunca foi o aluno que meu pai desejava em suas maquinações. Eu, ao contrário, me revelei um pequeno gênio escolar, com desempenhos notáveis em todas as disciplinas. Não que me agradasse, propriamente, estudar feito um obstinado; mesmo porque, aos oito anos, você não está em condições de usufruir daquelas vantagens advindas com a notoriedade, referidas logo no início desta história. As garotas, especialmente. Digo isto agora, embora me lembre de ter olhos muito especiais para uma loirinha que se sentava duas fileiras a meu lado, mas que minha timidez cuidou de afastar definitivamente de minha vida. Então era isso: eu estudava por temer represálias traumatizantes, de que meu irmão era vítima, obrigado a ler e reler e refazer exercícios matemáticos e científicos em geral, de sentido e objetivos desconhecidos até para mim, com minha longa experiência de três anos de incessante labuta escolar.
Havia, porém, pedras em meu caminho de estudante de sucesso. Duas, especificamente. Dois, para ser mais preciso. O primeiro se chamava Aílton; o segundo, Nehemias. Incomuns até nos nomes, além de excelentes alunos. A rivalidade entre nós, diferente do que possa parecer, se restringia ao desempenho nas provas. Aílton era o mais próximo de mim, inclusive no sentido espacial, pois éramos quase vizinhos. Magro como salário de professor, e até mais, isso lhe valeu, nos anos seguintes, o criativo apelido de "Osso" (por sinal, alcunha do Dr.McCoy, médico da nave estelar Enterprise, chamado de Bones pelo capitão Kirk). Haveria, nessa coincidência, algum vaticínio? O convívio diário mostrou que não, e mesmo no futebol pelejávamos numa harmonia perfeita maior, errando e acertando o mesmo número de lances. Nada que lembrasse os entreveros entre Spock e McCoy, na série de T.V. Ou tudo, dependendo da interpretação que se dê. Já Nehemias mantinha uma certa distância da turma em geral, embora não deixasse de ser simpático conosco em todas as ocasiões. Se fosse buscar semelhanças contemporâneas, Nehemias seria um Michael Jackson desengonçado, característica que se foi acentuando com o passar do tempo, não sei se por outra coincidência ou por um acidente de percurso, como se diz hoje.
Não bastasse, recapitulando, a pressão paterna e da competição pela primazia das notas, havia também um terceiro componente esmagador, e que nos fitava diariamente, afixado no espaço acima do quadro-negro: o retrato do Presidente da República, com seu olhar austero, logo acompanhado pelo do Ministro da Educação, este menos aterrorizante, embora me parecendo tão onipresente quanto o outro. A verdade é que não havia ocasião em que meu olhar não cruzasse com os dos retratos, tornando minha batalha ainda mais extenuante, visto me sentir obrigado a derrotar dois oponentes e a satisfazer, não apenas um pai, mas três, e todos severíssimos, para meu azar e de todos os demais alunos e não-alunos daquela e de outras escolas e lugares.
Enfim , o ano letivo passou com todos os contratempos previstos e, ao seu final, recebemos o boletim com as notas decisivas. Aílton ficara com a média de 98; Nehemias, com 97; e eu, oh glória das glórias, 100. Impossível dizer, hoje, quais foram minhas sensações naquela ocasião, se experimentei alguma daquelas alegrias catatônicas ou – preso ainda a minha ingenuidade dos oito anos – não atinei com a importância daquilo, ao menos no que diz respeito a pais e mestres. Porque era apenas uma medalha o prêmio por meus esforços. Uma pecinha de cobre ou latão contendo uma frase inscrita: "Honra ao Mérito", de significado longínquo e misterioso, quase cercado daquela aura das obras de arte e objetos sagrados. A fitinha verde e amarela que ornava a peça lembrava-me, para piorar, do caráter patriótico daquela – vá lá que seja – honraria, que não teve qualquer efeito prático imediato em minha vida, a não ser o de complicá-la ainda mais, visto as cobranças em relação a meu desempenho escolar aumentarem em tamanho e qualidade nos anos seguintes, sem que eu conseguisse corresponder a essas, digamos, esperanças. Constatava, entre desconsolado e decepcionado, que teria sido melhor se eu recebesse uma insígnia como aquelas que havia nos uniformes da tripulação da Enterprise. Pertencer à Frota Estelar seria, sem dúvida, mais honroso e menos trabalhoso – pensava eu – que manter o posto de melhor aluno da classe, um lugar muito sem graça e de poucas perspectivas aventureiras ou emocionais.
Aílton, com o tempo, confirmou sua habilidade para com a matemática, mas não teve condições de desenvolvê-la até o infinito. Ou teve, sei lá. Uma onda mais forte o levou e só o devolveu dois dias depois, devidamente lacrado num caixão pobre, num dia muito quente, lembro-me bem disso. Nehemias, perto da oitava série, afastou-se de nós, tornando-se companheiro do chamado "pessoal da bagunça" e assumindo um comportamento que eu, na época, achei estranho e mesmo perigoso, e que só depois fui identificar como sendo homossexual. A meu respeito, posso dizer que a medalha, se algum efeito teve, foi o de me tornar um medroso em relação a conquistas, a sucessos ou coisas que tais. É como se eu visse, nessa possibilidade, uma série de situações de tensão que me seriam insuportáveis, caso viesse a enfrentá-las. Psicologia barata, diria minha querida amiga Luciana, do alto de sua formação profissional. De um modo ou de outro, todos os três fracassamos, por vontade própria talvez, por imposição de um Destino sádico, por um motivo diverso qualquer, ignoro exatamente o quê. E só para encerrar: como toda medalha tem dois ou até três lados, é preciso dizer que, no ano de minha efêmera e incômoda glória, o Brasil sagrou-se tri-campeão mundial de futebol e "Jornada nas Estrelas", a série, completava seu primeiro ano de encerramento, para tristeza de todos os que viam e viviam um pouco além daqueles anos medrosos.

Crônica: "Refrigerante"

“Refrigerante”

Festa na escola, vocês já passaram por isso? Não sei se ainda são feitas, tamanha a violência que infesta nossas vidas, mas eram prática comum nas escolas públicas estaduais, sempre às voltas com falta de verbas, motivo pelo qual as associações de pais e mestres (entidades criadas para suprir o que o governo não fazia, ou seja: tudo) organizavam essas atividades caça-níqueis. No começo, eram só as famigeradas e odiosas (para mim) festas juninas. Tinha e tenho trauma dessas coisas. Primeiro que acho ridículo esse negócio de, vivendo em São Paulo, se fantasiar de caipira (com todo o respeito aos que possuem raízes interioranas). Depois, obrigar a criançada a dançar quadrilha que, no meu entender, só vale para assaltos a bancos. Por fim, a extorsão qualificada que era a "cadeia", um lugar para onde levavam qualquer um que tivesse cara de trouxa ou não fosse forte o suficiente para resistir a seus captores. Bom, mas estou me desviando do assunto.
Então, começaram com as tais festas e, após algumas tentativas frustradas com temas infelizes - do salgado, de doces etc. - tiveram (ignoro quem) a idéia de promover uma festa do guaraná. Não, nada de orgias aspergidas com o suposto afrodisíaco. Guaraná, aquele que vem em garrafas, gasoso, doce, e produzido pela mesma companhia que produz a melhor cerveja do país (de acordo com ela própria). Não, não é a Brahma. (Um parênteses: como é duro evitar o merchandising hoje em dia!) Festa do Guaraná, com fornecimento de bebidas pela Antárctica, atual Ambev (pronto, tá feita a propaganda!), salgados e sanduíches pelas mães, e canecas vendidas juntamente com o convite que dava direito à entrada e a todo o guaraná que você conseguisse beber.
Devo confessar que nunca fui fã desse refrigerante. Hoje, talvez pela invasão quase hecatômbica da... da... Coca-Cola (desisto!), me sinto tentado a bebericar o líquido dourado e doce enquanto me enveneno com um Big Mac. Mas, naquela época, já sentia saudades de uma daquelas marcas locais, desaparecidas por conta do poderio econômico dos concorrentes. Havia a Tubaína, que ainda pode ser encontrada em certos bairros, mas que não chega aos pés das que bebi. Melhor que esta, no entanto, era a Cerejinha que, evidentemente, não tinha resquício nem lembrança da fruta que inspirava seu nome, mas era única, um diferencial perante a mesmice de bebidas inócuas (ou quase) de hoje.
Enfim, o guaraná... Imaginem um bando de pré-adolescentes dos anos 70 numa festa em que pode beber o quanto quiser. É lógico que vão inventar alguma idiotice do tipo "vamos ver quem bebe mais?" Venceria quem bebesse o maior número de canecas, metaforicamente falando, é claro. Lembram que, um pouco antes, eu havia dito que guaraná é doce? Pois bem, depois da 20ª dose (uns quatro litros, pelo que posso calcular) não é mais. Além de um aumento considerável da barriga (devido ao gás) e da vontade de urinar (por motivos óbvios), crescia em todos nós - e em mim, com mais certeza - um amargor na boca, que parecia se estender à garganta e ao estômago, e que tirava todo nosso apetite no que diz respeito aos sanduíches que eram vendidos. Hoje, com a sabedoria adquirida com os anos, eu diria tratar-se de uma azia. Na época, era só um treco esquisito, ou seja lá como chamávamos a isso.
Diante do quadro emergencial, dirigimo-nos, um de cada vez (pois, mesmo naqueles tempos, o que iriam pensar de um grupo de rapazes, de pós-infantes, de panacas, enfim, entrando todos num recinto fechado e recluso), dirigimo-nos, repito, ao banheiro. A dúvida que me assaltou, e aos outros, era se aliviávamos a bexiga ou o estômago (este, via garganta). Parecia que todo mundo havia descarregado fora do vaso, tamanha a quantidade de água (água?) no chão. Isso, fora o cheiro dominante, um tanto pesado para quem bebera e comera além da conta. Hamlet, se estivesse em meu lugar, teria reformulado sua famosa dúvida existencial. Para resumir, segurei o quanto pude a respiração e esvaziei minha bexiga, que nunca mais seria a mesma depois daquele dia.
Não só ela, aliás; nossa escola também, já que, devido ao sucesso alcançado, os organizadores resolveram repetir a dose nos anos seguintes, prova incontestável da proliferação geométrica da idiotice, ao menos naquela região. Meus amigos e eu, baseados na lógica de nossa idade, é evidente, está mais que na cara (novamente no sentido figurado, por favor), não havia outro caminho a optar que não fosse comparecer lá todos os anos, cometendo as mesmíssimas besteiras. Não sei porque ninguém teve a idéia de trocar o guaraná pela Grapette, outro refrigerante que marcou minha infância. Mas acho que, se fossem fazer isso, colocariam a Fanta Uva no lugar. E essa, eu detestava.
Nessa altura, eu sei que vão dizer que faltaram sexo, drogas e rock'n roll. Também não houve palavrões, nem sangue, nem morte. E, para falar a verdade, nem história, se formos ser rigorosos. Mas, ora, o que é que vocês queriam de uma geração como a minha, marcada ainda pela repressão educacional nipônica? É verdade que, um tempo depois, muitas dessas coisas, que alguns considerariam hediondas, entraram em minha vida. Quanto a meus amigos, uns fumam; outros bebem; outros praticam as duas atividades; outros, nenhuma delas; e todos engordam e envelhecem. Penso se o mesmo não ocorre comigo, mas creio que não, ao menos no grau deles. Culpa dos refrigerantes? Pode ser, embora eu ache que o problema maior esteja em outras artificialidades do dia-a-dia. Mesmo porque festas como aquelas, nunca mais as tivemos, e acho que esta é a nota melancólica desta - vá lá que seja - história, só para não fugir de meus hábitos. Mas a melancolia, os motivos, ficam pra uma próxima vez.

Crônica: "Os limites"

“Os limites”

A amizade é sempre um aprendizado difícil. Enquanto brincamos, não importa se junto a árvores ou num videogame de última geração, estamos constantemente exercitando nossa capacidade de convivência, aceitando ou rejeitando o que o outro nos oferece ou subtrai. Já adultos, saindo em programas comuns ou oferecendo jantares, permanecemos aprendendo a controlar o encontro de egos os mais diversos, sempre temerosos da invasão alheia e da inevitável explosão que resultaria disso. Brigas, ofensas, mágoas, tudo parece um processo em que nós nos obrigamos a tomar atitudes que fundamentarão toda a nossa vida a partir daquele momento, apontando, ou para a felicidade, ou para a desgraça total.
Nunca fui de muitas amizades. Aliás, acho improvável que qualquer ser humano normal tenha, durante a vida, mais do que cinco ou seis amigos, daqueles de verdade. Durante a infância e a adolescência, tive pelo menos dois, em muita coisa opostos, mas que estiveram comigo em quase todos os momentos difíceis, desde a mudança de escola até o primeiro emprego. Sérgio era o mais expansivo; Henrique fazia o gênero ranzinza. Ainda que amigos, poucas vezes tivemos experiências em comum, talvez pela diferença de temperamentos que nos levava a posições, várias vezes, antagônicas. No geral, era eu o mediador, justamente o menos capaz de tomar qualquer tipo de decisão, quanto mais a que fosse correta ou conveniente. Uma vez, no entanto, tivemos de atuar juntos, ou quase.
Foi numa época em que a moda, entre nós, era jogar cartas. Nem importava muito o jogo, até porque não havia interesse monetário; éramos apenas um grupo de adolescentes competindo entre si para ver quem era o mais esperto ou o mais sortudo. Meus pais haviam saído, de modo que a casa era toda nossa. E, dentre as muitas bobagens que jovens são capazes de fazer quando se pilham sozinhos, alguns de nós escolheram a pior: beber. Sérgio estava nesse grupo. No começo, era difícil resistir ao rosto sorridente e redondo de nosso amigo, embalado por alguns goles de um vinho barato que alguém havia trazido. Os amendoins e as batatas fritas, que deveriam durar a tarde toda, estavam sendo devorados com uma velocidade inimaginável pelos que bebiam. Apenas Henrique e eu, sóbrios, acompanhávamos a escalada da euforia; no começo, divertidos; com o tempo, apreensivos. Sérgio parecia estar perdendo o controle, o que foi notado pelos demais: tudo o que fazia era olhar para as cartas que tinha na mão e rir, rir muito. Por melhor que fosse o jogo, não creio que houvesse motivo para tanta alegria, a não ser...
— Um bando de palhaços!, disse Sérgio.
— Como é que é?, perguntamos.
— Palhaços. O valete, a dama, o rei, o coringa... Ôrra, meu, cada figura esquisita!
O que fizemos foi trocar sensações de desamparo; nunca havíamos passado por aquilo. Nossos olhares se voltaram para o Nélson, um dos que trouxera as bebidas, e o mais experiente da turma. Sua tranqüilidade, seu autocontrole, seu senso de responsabilidade, com certeza, nos tirariam daquela situação complicada. Ele, levantando-se rapidamente, fez soar sua decisão:
— Bom, pessoal, hora de se mandar!
Se mandar? Mas que negócio era aquele? Nosso amigo ali, bancando o ridículo, mal podendo ficar sentado, quanto mais de pé, e a solução era ir embora? Além do mais, aquilo estava acontecendo em minha casa, e eu é que teria explicações a dar se o Sérgio, sei lá, desmaiasse, entrasse em coma, morresse. Além disso, onde deixaríamos o cadáver? Pensei no terreno baldio perto dali, mas foi um instante só. Logo voltei à realidade, constatando que, como bons adolescentes, estávamos, literalmente, entrando em pânico. Vozes se alternavam:
— Banho frio. Me disseram que banho frio é bom pra essas coisas.
— É, mas café é melhor pro cara acordar.
— Ele está dormindo?
— Bom, quando a gente deita no chão...
— Onde?!
—Ali, debaixo da mesa.
Com o coração dividido entre a batedeira e a geladeira, ou seja, entre a taquicardia e a síncope, decidimos aplicar todos os truques que conhecíamos para recuperar nosso amigo. Henrique, até então calado, lançou sua nota de sabedoria:
— Eu não falei? Só tinha que dar nisso mesmo! É o que dá não saber respeitar os limites!
— Limites? Que limites?, falei, enquanto tentava fazer com nosso bêbado debutante bebesse um pouco do café que havíamos preparado.
— Os limites, ora!, encerrou Henrique, balançando a cabeça.
Confesso que o mais difícil foi colocar o Sérgio no chuveiro, já que esse negócio de tirar roupa de homem não fazia parte de nosso cotidiano. Enfim, depois de muita luta e recomendações, deixamos o sujeito lá dentro, ainda vestido, rezando para que a água fria não o pusesse em estado de choque. Minutos de ansiedade se passaram até que a porta do banheiro se abriu, mostrando uma figura deplorável, os cabelos e as roupas pingando, e um riso sem graça nos lábios. Ainda trôpego, mas menos bêbado, Sérgio tentava se desculpar:
— Ô, pessoal, mancada, heim?, disse, enquanto se sentava.
O caso é que ele não se sentou. Digo melhor: desabou na cadeira e caiu direto ao chão, adquirindo a densidade do plasma. Não sei por quê, mas me lembrei também das aulas de biologia: nosso amigo era a encarnação da matéria protéica inerte, sem vontade própria. Entre a queda e esse pensamento, a debandada foi quase total: Nélson alegou uma dor de cabeça repentina, Walter tinha a lição de matemática para fazer, o Pedro esquecera a torneira do banheiro aberta. Ficamos somente o Henrique e eu. Além, é óbvio, de nosso incômodo bebum.
— E agora?, perguntei.
— Ele vomitou no banheiro. Bom, pelo menos acertou no vaso
Uma das figuras de linguagem mais recorrente em minhas relações fraternais era, sem dúvida, a ironia. Por outro lado, talvez ele estivesse falando aquilo a sério. Porque uma das coisas que mais me surpreendia no Henrique era sua capacidade quase única de ver a realidade sem qualquer maquiagem, extraindo dos fatos apenas o que eles continham de concreto.
— Vai morrer.
— Tá brincando!
— Você vai morrer se não arrumar essa bagunça. Olha o banheiro! A sala, então... E, balançando a cabeça: é o que dá passar dos limites.
Não agüentei aquele tom de sermão paterno adiantado. Afinal, já que eu tinha de levar a bronca, que ao menos fosse do titular, e não de um regra três qualquer. Com meus brios sacudidos, como diria o cronista, resolvi dar um basta naquela empulhação:
— Escuta, já tô por aqui com esse papo de “limites”, tá legal? Você só fala, fala, fala, mas fazer que é bom, nada! Quer saber? Por que você não foi embora junto com os outros? Pelo menos eu não tinha que ficar te agüentando aqui, me torrando! Sou eu que vou me ferrar, mesmo, não é?
Faltava um golpe final, uma frase arrasadora que colocaria aquele imbecil de uma vez por todas em seu lugar, aniquilando aquela existência miserável, alguma coisa do tipo...
— Pô, Henrique, me ajuda!
Por alguns segundos, os mais longos de minha vida até então, Henrique me olhou seriamente. Contemplou os copos sobre a mesa, as cartas espalhadas, bitucas de cigarros, a massa amorfa que um dia tinha sido nosso amigo, a água que ele trouxera do banheiro. Quando percebi, havia um sorriso em seu rosto, um sorriso meio gozador, meio solidário, não soube dizer exatamente qual seria, em meio a meu desespero.
— Se a gente começar agora acho que dá tempo até seus pais chegarem.
Não acreditei no que ouvi, pelo menos durante o pasmo inicial. Logo em seguida, porém, e mesmo sem compreender direito o que levara Henrique a mudar de humor, limpei, digo, limpamos todos os vestígios de nossa imprudência. Ao fim, restava apenas um, o mais pesado. Este, depois de mil pedidos de desculpas de nossa parte, foi entregue a seu pai, que, avalio, deve ter dado boas risadas com o ocorrido, passada a tempestade do primeiro momento.
Aquele dia, contudo, me marcou pela oportunidade de travar contato com um Henrique até então desconhecido. Ele, que não representava para mim mais que um colega muito mal-humorado, passara a ser uma pessoa com quem se podia contar, para os bons e maus momentos. Henrique me ensinara mais um passo na complicada arte da amizade. Com sua casmurrice, sua sinceridade irritante, mas, sobretudo, com sua tolerância, ele criou o elo que nos manteria unidos nos quase quinze anos seguintes, depois dos quais cada um de nós seguiu o seu caminho, seja lá para onde ele apontasse. Mas após tanto tempo, penso, algo satisfeito, que eu também lhe ensinei alguma coisa. O valor de um bom grito na hora certa, quem sabe? Ou a percepção dos limites da paciência alheia (no caso, a minha). Prefiro ser menos modesto, entretanto; digamos que, comigo, Henrique pôde exercer um pouco sua parte afetiva, escondida atrás da máscara da severidade nipônica tão longamente cultivada. Sem querer, ajudei meu amigo a romper um limite, mesmo que timidamente, e só naquela ocasião.
Nos anos seguintes, ainda aprenderíamos muito um com o outro, enquanto nossos egos cresciam e nossos olhos se voltavam para direções diversas. Jogamos futebol juntos, compartilhamos angústias amorosas, vivenciamos nossas dúvidas existenciais, até um dia em que deixamos de nos ver, de nos falar, de nos preocupar mutuamente com nosso bem-estar. Recentemente, pude vê-lo passando apressado pela rua. Esbocei um chamado, mas ele estava longe, talvez não me tivesse visto, ou preferisse mesmo não me ver. Eu poderia tê-lo alcançado, se quisesse, mas apenas observei-o dobrando a esquina seguinte, sumindo de minha vista. Creio que – é quase certo – talvez tenha sido melhor assim, somente a lembrança da amizade servindo de sustento para nosso afeto, de uma época em que romper limites pedia muito mais que coragem. A verdade é que não resistiríamos a nossos próprios fantasmas, à certeza de que o tempo passou e plantou raízes definitivas em todos nós, transformando-nos em homens vagos e insensíveis. Parece contradição, eu sei; mas quem disse que a vida não tem dessas coisas?

Crônica: "O medo do goleiro"

Também publicado no falecido blogue, ainda hoje este pequeno escrito me parece dizer respeito. Menos aos sentimentos nele envolvidos, mas muito mais pelos significados que acabei, digamos, "embutindo" em seus meandros... Boa leitura!

“O medo do goleiro”

Todos já tiveram, sem exceção, ao menos um grande amor na vida. Ainda que limitado a uma única experiência – em geral adolescente; em alguns casos na fase madura – vivenciar o nascimento disso que será o tormento fundamental da existência humana é, sem dúvida, uma daquelas coisas que se farão imprescindíveis na educação sentimental de qualquer ser humano que se preze. Na minha vida, o primeiro desses grandes amores talvez se localize num período entre meus oito e quatorze anos, início da década de 70, logo que comecei a estudar numa escola estadual, recém-reformada – por dentro e por fora – pelo governo.
Conheci Márcia numa sala de aula, segundo ano do antigo primário, hoje primeiro grau. Éramos bem umas trinta ou quarenta crianças, todas muito parecidas em suas carências e capacidades. Num tempo em que os hormônios pareciam só vir depois dos treze ou quatorze anos, sermos "crianças" não chegava a ser bem uma ofensa. Naturalmente, havia algumas mais desenvolvidas que outras, mas nada que chegasse a atrapalhar uma certa homogeneidade próxima à do leite Ninho Instantâneo. Mas ela estava lá, destacando-se no meio daquele perigo de algazarra, com seu perfil arrebitado, num orgulho ainda sem consciência, balançando os cabelos... vá lá: claros, um ouro impuro mas brando em meus olhos castanhos. Sei que foi ali, naquele lugar, um segundo da esperança que ela ergueu, um sorriso e o exercício de matemática sem solução, foi bem ali que passei a amar secretamente Márcia e seus mistérios.
Até o grande incidente que inaugurou nosso período de separação, por volta dos treze anos, havia – não sei bem como dizer – havia sempre um clima de entendimento entre nós dois. Por imposições escolares, Márcia e eu costumávamos nos ver cotidianamente, na casa de nossa professora. Eu, como o melhor aluno da classe na época, bem entendido; Márcia como sobrinha-neta. Isso desde os oito anos de idade, uma convivência pacífica, ainda que cercada de cuidados de minha parte, sem saber exatamente o que me impelia a querer ficar mais e mais a cada dia, sentindo o perfume do banho tomado, um conforto incômodo que emanava de minha amiga, misturando regras gramaticais e ciências naturais, geografia e história em estudos sociais. O fato é que Márcia era uma presença maior que o Ultra-Seven em minhas tardes sem lição de casa ou futebol na rua. Sei que parece idiota, talvez fosse mesmo, porque todos o éramos naqueles tempos incontestáveis; mas Márcia e eu formávamos alguma coisa boa, de que eu não sabia precisar a exata matéria.
Isso, até o primeiro rompimento, objeto de outro relato, já antigo. Algum tempo mais tarde, ambos entrados na adolescência, voltamos a estudar na mesma sala. De início, separados por uma torrente de amigos e inimigos, por comportamentos e, principalmente, por uma espécie de namoro que ela começara no ano anterior, com um dos chamados "repetentes", numa época em que isso era motivo de estigmatização por parte de todos. Rubão, era como o chamávamos nós, os "estudiosos", por motivos que iam da obviedade até o obscuro das conversas maliciosas. Seja como for, nada me parecia tão distante quanto Márcia de braços dados com Rubão, e pensamentos nada românticos se pendurando no trapézio machadiano de minha cabeça me diziam que eu nunca mais conquistaria Márcia, que era assim mesmo, o mundo pertencia aos mais fortes. Bem, não diria o mundo todo, mas pelo menos sua parte feminina, que era o que importava naquele momento. O fato é que minha outrora amiga como que parecia se comprazer de desfilar com os músculos de Rubão diante, principalmente, de mim, recolhido num canto do pátio com minha magreza de não-esportista, junto a meus iguais.
Naquele ano, o último de nossa inocência, a direção da escola resolveu promover um campeonato interno de futebol de salão, e o torneio da oitava série envolvia apenas quatro classes, entre elas a minha. Em princípio, nada que me dissesse respeito, até sabermos que a condição sine qua non para participar era o desempenho, digamos, acadêmico. Traduzindo: notas baixas, "vermelhas", como dizíamos, excluíam o pelejador do time. Traduzindo a tradução: fui alçado à categoria de titular, eu que, apesar de gostar do esporte, nunca me considerei nada além de um jogador esforçado. Apesar disso, e para resumir a história, conseguimos levar o torneio até uma partida de desempate com a classe favorita, aquela em que jogava – adivinharam – Rubão, inacreditavelmente isento das sanções escolares. Na torcida, outra obviedade desta história: Márcia. O jogo prometia ser um massacre, já que Rubão e companhia, mordidos pela derrota diante de nós no jogo anterior, juravam vingança. Para aumentar o clima de perigo, uma garoa já não tão paulistana tornava o piso da quadra tão seguro quanto amor de adolescente. Com tudo isso, havia entre os jogadores de nosso time, talvez mais em mim que nos demais, um desejo, uma esperança, quem sabe uma confiança de vencer, de mostrar uma capacidade que nós mesmos desconhecíamos, e Márcia ali sentada, olhando para mim, para Rubão, eu não tinha bem certeza, sei que essa vontade foi tomando conta da gente, próximos à beira do milagre, que é o que esperávamos. A verdade é que o jogo começou nervoso, nós apenas tentando impedir que o adversário fizesse o gol, até, num instante distraído, a bola sobrar para mim, cara a cara com o goleiro, e eu acertar o chute com raiva calculada, um a zero. Então, quase sem querer, meus olhos se voltaram para Márcia, ignoro com que intenção, e não vi nada, ou melhor, vi exatamente isso: nada. A Márcia que eu conhecera e amara, isso eu percebia naquele momento, ainda que não tivesse palavras para o dizer, aquela Márcia não existia mais, pode ser que nunca tivesse existido, fruto de desejos infantis e adolescentes, só sei que minha Márcia passou a ser apenas uma imagem emoldurada no quarto de meus fantasmas pessoais, tamanha a impressão causada por aquele olhar, o primeiro de muitos que eu teria de enfrentar na vida.
Depois daquilo, a partida não fazia mais qualquer diferença, ao menos para mim. Tudo se quebrara, sem solda ou cola possível que não o tempo, mas não somente os dois de um jogo de futebol. Vencemos, para não se dizer que a perda foi total. Vencemos os favoritos, levamos a taça, as medalhas, as pequenas glórias de nossos quatorze anos. Vencemos, sobretudo, nossos temores mais evidentes. Mas aquele gol marcou um fim e um começo, que só hoje sou capaz de compreender em todas as implicações. As mulheres movem a vida, afinal, e isso eu percebi quando Márcia beijou um Rubão desconsolado naquela noite plena de vitórias, derrotas, e novos saberes. As medalhas e a taça sumiram com o passar do tempo, assim como meus companheiros de jornada, muitos ainda vivos, outros nem tanto. De minha ex-amiga, soube, recentemente, estar casada e feliz, longe de Rubão. O beijo de Márcia, esse, no entanto, está comigo até hoje, marcado na pele e nos olhos assombrados pelo desejo. Mudo. Como o medo do goleiro na hora do gol.

Crônica: "Dos limites ou: A metafísica dos barbeiros"

Isto já foi publicado no blogue falecido, mas como aqui é tudo novo, achei melhor reeditá-lo. Aproveitem para reler a bagaça.

Dos limites ou: A metafísica dos barbeiros

Quando nasce a vaidade humana? Uns dizem que é inata; nascemos com ela e, à medida que dela necessitamos – quando o instinto de preservação da espécie assim o exige – se mostra, bela e resplandecente. Outros afirmam que seu surgimento se dá a partir da consciência da sexualidade, daí as crianças de hoje serem tão zelosas de sua aparência – as apresentadoras da TV estariam aí para confirmar essa posição teórica. Isso nos leva a concluir que o sexo, para variar, seria a motivação, não só da vaidade, mas de todos os comportamentos animais (humanos incluídos). Essa constatação, conquanto não respondesse com objetividade à minha pergunta, ao menos poderia servir de consolo quando eu, aos doze anos, era obrigado a cortar o cabelo por imposição paterna.
Parafraseando Mário de Andrade, diria que meu pai era um desmancha-prazeres cinzento, ainda que esse matiz não traduzisse o grau repressivo de seu caráter. Tendo passado por todas as fases do desenvolvimento infantil na sua relação com a figura paterna, ou seja, percebendo que a realidade brutal me impusera aquele homem como o grande carma de minha vida, era com inconformismo que me via obrigado a seguir um modelo imposto de corte de cabelo. Ora, estávamos em 1974, víamos os Secos e Molhados, o glitter rock estava no auge, o Led Zeppelin estourava nas paradas, e não era possível que só eu me visse alijado daquela tendência de longos cabelos (já que as idéias, na época, eram bem curtas...).
Além disso, havia as garotas: como impressioná-las sem o aparato (no bom sentido) necessário? Fora se vestir bem, era preciso ter cabelos longos. Como usávamos uniformes na escola, percebe-se que o primeiro item já estava prejudicado, ainda que todos os alunos fizessem uso dos limites permitidos nas medidas das roupas: barra com abertura máxima de 21 centímetros – no caso de calças; e saia até um palmo acima do joelho. Mesmo os cabelos não podiam ser muito compridos e, embora não houvesse regras explícitas, todos supúnhamos um tamanho "x" que se afigurasse como aceitável e pronto. Mas nem isso meu pai me permitia, é claro.
De modo que, uma vez por mês, o sacrifício de cortar minhas madeixas (que nem madeixas eram, mas tudo bem) impunha-se como ordem superior, divina, incontestável. E, contrariando o ditado que diz que as coisas não podem ficar piores, havia um barbeiro perto de casa especialmente escolhido para esse fim macabro. Por sinal, o próprio nome da atividade tinha alguma coisa de sinistro: nunca me esquecera a leitura dos livros de ciência, que davam notícia da existência de um inseto, transmissor da doença de Chagas, que recebia a mesma denominação do profissional citado. Outro dado estarrecedor era a antiga prática do uso de sanguessugas, quando os barbeiros faziam papel de médicos. Alguma coisa me dizia que aquilo ainda era praticado, em nossos tempos, ainda que sob disfarces sutis, sabe-se lá como.
Pois bem: eu já era vaidoso o suficiente para perceber que aquele tipo de imposição teria de acabar, sob pena de nunca sentir o gosto do beijo de uma garota, e o que viesse depois disso. Entrei no pequeno recinto disposto a modificar o jogo a meu favor. Sentei-me, aguardei aquela amarração incômoda de panos e disparei, tentando ser o mais convincente possível:
— Olha, me corta bem pouquinho, tá?
O sujeito parou, fitou-me atentamente e devolveu:
— Como? Fala mais alto, menino!
Duas complicações: não me ouvira e me chamara de "menino". Se havia uma coisa que me punha fora do sério era ser chamado daquela maneira. (Hoje, o mesmo efeito pode ser alcançado por quem me chama de "japonês". Pode parecer lógico, mas nem de longe é verdadeiro – sem contar a carga de preconceito embutida.) Diante daquilo, resolvi ser mais impositivo:
— Se o senhor puder, corta só um dedo, pode ser?
Evidentemente o pedido foi feito no sentido figurado. A reação do homem, entretanto, quase parecia indicar o oposto:
— Ué, então pra que você veio aqui, menino?
Descobri, do modo mais desastroso, que barbeiros são seres extremamente sensíveis no que diz respeito a sua atividade profissional. Ou seja: existe, em todos, uma vontade, uma volúpia, quem sabe uma tara de origem ancestral, que os leva a querer desbastar completamente a cobertura capilar do freguês, o que é – no mínimo – um contra-senso, pensando bem. Se você pede "dois dedos", cortam três; se deseja só "um acerto de corte", são capazes de ter chiliques. Não me intimidei, contudo. Naquele momento que me pareceu decisivo, encarei-o firmemente, dizendo:
— Vim cortar o cabelo, ora essa! – E, antes que ele movimentasse a tesoura: mas do meu jeito, pode ser?
E foi assim, orientando aquele homem sem imaginação, que eu cometi a primeira das minhas grandes desobediências, a primeira de muitas de um trajeto longuíssimo que não sei se terminará tão cedo. É certo, também, que os cabelos mais longos não me trouxeram nada daquilo que eu esperava. Mas foram uma conquista. Pequena, efêmera, fútil, mas uma conquista. Outras vieram, assim como derrotas desanimadoras, e não sei se o saldo é ou não favorável a mim, atualmente. A batalha dos cabelos, estopim de todas as outras, no entanto, eu só perderia para o tempo, pai de todos os deuses. Mas desse, infelizmente, eu não poderia me livrar.

Reinaugurado

O texto abaixo é antigo e nunca foi publicado em lugar algum. Fazia parte de uma série de escritos de caráter memorialístico que perpetrei no início da década de 90 nos encontros do grupo de Redação Criativa do Museu Lasar Segall. Este, junto com outros que foram publicados no falecido Defenestrando o Inútil, são exemplos claros de que minha carreira como narrador tinha mesmo que ser abortada. Mesmo assim, gosto daqueles textos e, já que blogues foram feitos também para isso - para esse exercício mórbido de desencavar fósseis - achei por bem publicá-los. Há quem - além de mim - goste deles...

Crônica: "Doces visões da infância"

Doces visões da infância

Domingo no parque, ou melhor: passeio ao zoológico. Naquele ano de 1971, alguma alma benfazeja propôs que as classes do 3º ano fizessem uma excursão do tipo educativo e, já que não estávamos em época de Salão da Criança, a única saída possível era o Jardim Zoológico, local propício à prática pedagógica e ao aprendizado peripatético, ainda que marcados por algumas sutis diferenças: não vivíamos na Grécia Antiga, e nossas professoras estavam um pouco longe de Sócrates, em vários sentidos.
Ao saber da notícia, fiquei dividido entre uma certa euforia – própria das crianças que se deparam com novidades – e uma desconfiança quanto à forma com que a coisa se processaria. Pois eu presenciara, nos já referidos Salões da Criança, cenas dantescas em que dezenas de garotas e garotos eram conduzidos por suas respectivas mestras por meio de – como direi? – "cercadinhos" de corda; uma espécie de trenzinho de Carnaval, só que absolutamente contido. E eu, livre, próximo a meus pais, via tudo aquilo com assombro e superioridade, e os rostos tristes e ávidos eram de um contraste pavoroso com a minha situação. Seria assim nosso passeio?, conjecturava eu com os botões de meu pijama, na noite anterior ao acontecimento. Uma longuíssima noite, diga-se de passagem.
E já que falei em passagem, no dia seguinte, à porta da escola, um ônibus fretado nos esperava. Fretado ou furtado, sabe-se lá, pois parecia sobra daquela revolução de sete anos antes, com o agravante que andava e transportaria setenta crianças encapetadas e suas professoras. Um de meus colegas, como que numa premonição de seu... destino, tomou conta da cadeira do cobrador e, ainda que não houvesse dinheiro no caixa, adquiriu um certo ar distinto que jamais voltaria a ter, porque jamais se sentaria num lugar mais alto novamente, a não ser aquele mesmo. Cada um com a glória que merece, diria meu vírus neoliberal, escondendo – na verdade – minha inveja pelo destaque ganho por ele. O ônibus, confirmando a etimologia, recebeu a todos e, com o motorista a postos, pôs-nos a caminho e ao encontro das feras.
Bless the beasts and the children, cantaria Karen Carpenter. Há, de fato, alguma coisa em comum entre esses dois representantes do reino animal. Muito provavelmente a tendência a atitudes irracionais. Ou uma inocência de feições destruidoras. Graças, porém, à prudência dos organizadores, nosso passeio foi marcado, não num domingo, mas numa sexta-feira. A tranqüilidade do lugar só quebrada por nossos gritos, que se misturavam aos das crianças de outras escolas. Enfim, tínhamos o parque quase todo só para nós, fato que recebíamos com a alegria egoísta dessa faixa etária. Isso foi vital para que a idéia do "trenzinho" fosse abandonada, visto haver certa segurança, já que aprendíamos coisas úteis como "não confiar em estranhos", "chame um policial se se sentir em perigo", ou "não compre doces na porta da escola: eles podem estar envenenados". Mesmo assim, como resistir às guloseimas vendidas naquele paraíso? Maçãs do amor brilhantes, algodão doce, cachorro quente, e todas essas coisas meio nojentas aos olhos dos adultos. E churros. Não desses que se vendem hoje, com recheio e referências fálicas, mas dos simples – mais finos e somente recobertos de açúcar e canela. Assim, devidamente autorizados, usávamos nossos cruzeiros novos na compra daquelas coisas, devoradas com um prazer parecido com o do urso, que vimos ser alimentado habilmente pelo funcionário encarregado.
Aílton, meu amigo pessoal e adversário acadêmico, compartilhava comigo do espanto do primeiro contato com determinados animais, conhecidos apenas nos livros. O lobo guará, o rinoceronte, o leão preguiçoso e as cobras aparentemente viscosas, todos eles enchiam nossos pulmões de medo e nossos estômagos de água, pelo aspecto e pelo odor desagradável que exalava de seus recantos e corpos. Meu amigo, estranhamente, não parecia atraído pelos sabores, brilhos, e pelo colorido das guloseimas à nossa disposição, limitando-se a comer dos biscoitos que trouxera de casa. Mas por quê?, indaguei, imaginando náuseas grotescas, e sem perceber o olhar sem graça que me dirigira. "Não tenho dinheiro", era o que ele falava, sem abrir a boca. Coisa que, aliás, eu mesmo deveria ter feito, se fosse mais esperto. Ficamos, assim, os dois sentados à beira do caminho, um sol fresco naqueles anos cinzentos, olhando as árvores daquele Brasil que a mão de Deus abençoou, como dizia uma canção que tomaria conta das paradas militares, digo, de sucesso, no ano seguinte. Os colegas se divertiam no parquinho de areia malcheirosa; então me voltei para Aílton, e propus: "Vamos comer um churro?"
Ele permaneceu por alguns segundos em silêncio, soltou algumas palavras de recusa, mas insisti, eu pagaria, que besteira era aquela, deixa de ser bobo, e puxei-o pelo braço, arrastando-o comigo, sem me esquecer de avisar a uma das professoras aonde iríamos. Comprei dois pedaços recém prontos, ainda espalhando o aroma inconfundível e, sem malícia, compartilhamos daquele prazer descomplicado, antes mesmo que eu pudesse guardar o troco recebido. Ao terminarmos, o dinheiro ainda em minha mão, disse para Aílton: "Toma, fica pra você!", sem dar tempo para protestos e contestações. Contrafeito, aceitou as notas, guardando-as no bolso frontal da camisa. Confesso não me recordar da quantia ofertada, se muita ou pouca, mas o fato se repetiu mais duas vezes naquele dia, as bolachas esquecidas na bolsa, Aílton mais conformado com minha insistência, e nos divertimos bem, longe de um mundo que excluía os diferentes, os animais na sua mansuetude enganosa e crianças em fase de descobertas.
Na semana seguinte, em casa após uma segunda-feira cansativa, tocaram a campainha. Minha mãe atendeu e me chamou. Era comigo, o que seria? Na rua, Aílton e uma senhora idosa. Ares estranhos, e mais ainda para mim, que não entendia o porquê daquela visita. Aproximei-me, temeroso por alguma coisa que não fizera. Ou fizera? Quando Aílton, instigado por sua mãe (soube então), me falou do motivo daquela aparição inesperada... Era mais do que evidente: o dinheiro do zoológico. A mulher me interpelou:
— Mas você deu mesmo tudo isso pra ele?, e me mostrava as diversas notas, um tanto amarfanhadas, onde se distinguiam as efígies da Princesa Isabel e do Pedro Álvares Cabral, não sei se mera coincidência ou fato carregado de simbologias que só muitos anos depois eu poderia interpretar.
Eu, surpreso com tudo aquilo, olhava para o rosto de Aílton, abaixado e – avalio hoje – envergonhado, e para o de sua mãe, vincado de rugas, uma lágrima começando a surgir. Mesmo sem compreender, respondi que sim, o dinheiro era dele, não havia problema algum. Então, aquela mulher ergueu os olhos e os braços e me agradeceu muito, Deus haveria de pagar aquele ato de bondade, disse, segurando minhas mãos. Nos olhamos mutuamente, os três, afogados em silêncios e lágrimas, então ela se despediu, Aílton também, deixando-me ali sem saber o que fazer, vendo-os descer a rua até sumirem na primeira curva.
Naquele dia, tive meu primeiro contato com um gosto novo, diverso do das maçãs e dos churros. Um prazer muito mais duradouro e, ao mesmo tempo, incômodo. Nunca entendi o porquê de minha atitude naquele passeio escolar: se por desconhecer o valor do dinheiro; se por um sentimento de solidariedade, raro naqueles dias como hoje; ou se por um anseio de me sentir poderoso, como aquele menino no banco do cobrador, sonhando com seu uniforme, a posse da catraca e suas conseqüências. O fato é que, sob diferentes modos, esse sentimento iria nortear boa parte de minha vida dali por diante, com raríssimas vantagens pessoais para mim e, por que não dizer?, até mesmo enfrentando prejuízos de todas as ordens. Enfim, fiquemos com a tese da bondade. Ela é insustentável e explica muito pouco desta história absurda, eu sei. Mas, pensando bem, talvez seja por isso mesmo; afinal, pelo óbvio ou pelo mistério, nem tudo carece de explicação, até para conferir algum significado aproveitável para esta crônica de paquidermes, urutus e outros bichos menos memoráveis.