Blogue de um pretenso poeta, intelectual de cafeteria, reclamão de todas as horas e professor de Literatura por profissão (e, dizem, talento). Poemas e exercícios narrativos, crítica de cultura e maledicências ligeiras em tom farsesco. Tudo aqui é mentira.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Gente peçonhenta: não trabalhamos
Um amigo, na verdade um grande amigo, disse-me que eu deveria deixar de me apoquentar com as cobras que, há alguns dias, resolveram fixar morada em minha casa. Confesso que, no começo, elas me assustavam: a pele viscosa, quase gosmenta; os dentes agudos pingando veneno; os olhos de não-ser (como diria Riobaldo). Silvavam naquele timbre irritante entre o metálico e o borbulhante, sabe como? Entravam pelas frestas, refestelavam-se nos móveis, deixavam tudo impregnado com um cheiro meio de vômito. Desapareciam quando eu me aproximava. Incômodo total. Tinha de limpar tudo, passar pano, desinfetante, álcool, abrir as janelas, deixar entrar o sol. E antes que o dia terminasse, bastava eu sair um minuto, elas voltavam. Até que conversei com esse meu amigo, na verdade um grande amigo. O segredo é não se deixar incomodar por elas. Ignorá-las. Mostrar qual é o verdadeiro lugar delas: as sombras, o esgoto, o imundo. Pena que já era um pouco tarde para salvar minha casa, toda carcomida pelas malditas. Aqui, porém, elas não virão. E, caso o façam, já sei exatamente como proceder.
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